domingo, 8 de novembro de 2009
sexta-feira, 19 de junho de 2009
MÍDIAS NA EDUCAÇÃO – CICLO BÁSICO III - UFRJ
MÓDULO INFORMÁTICA
TRABALHO FINAL
NOME DO CURSISTA: Luiz Cláudio Bernardes
TURMA: UFRJ 11
TUTOR: Júnia Ramalho
DATA DA POSTAGEM: 19-06-2009
Os problemas apresentados na questão proposta surgem hoje de forma generalizada em todas as escolas. Consideramos que as estratégias necessárias para minimizar tais problemas seriam a adoção de pesquisa supervisionada, verificando o professor, com antecedência, fontes seguras e apropriadas ao contato dos alunos com os novos conhecimentos presentes nos objetivos.
Consideramos a adoção da webquest uma forma bastante eficaz para a prática dessa pesquisa supervisionada. No entanto, enfrentamos problemas que consideramos quase culturais: quando apresentamos a possibilidade de acesso à Internet para os alunos, o que eles querem?
A resposta é fácil: Orkut ou Msn ou os dois.
Em vista do exposto, pensamos ser necessário a conscientização dos alunos quanto às possibilidades de obtenção de conhecimentos através da internet. Estimular a construção de uma autonomia por parte dos mesmos, enquanto sujeito que busca, pesquisa e elabora conhecimentos para uma melhor compreensão do mundo em que vive.
Os comportamentos de observação, comparação, registro e documentação, leitura de textos e de imagens devem ser estimulados para a formação do espírito crítico, fundamental para se lidar com uma fonte de informações de volume extraordinário e nem sempre de acordo com a verdade, com a cidadania ou com a ética.
Necessário se torna também, o incentivo de atitudes de respeito ao direito de autoria pelo conhecimento produzido por outrem, esclarecendo que o desrespeito ao mesmo fere princípios éticos e legais.
MÓDULO INFORMÁTICA
TRABALHO FINAL
NOME DO CURSISTA: Luiz Cláudio Bernardes
TURMA: UFRJ 11
TUTOR: Júnia Ramalho
DATA DA POSTAGEM: 19-06-2009
Os problemas apresentados na questão proposta surgem hoje de forma generalizada em todas as escolas. Consideramos que as estratégias necessárias para minimizar tais problemas seriam a adoção de pesquisa supervisionada, verificando o professor, com antecedência, fontes seguras e apropriadas ao contato dos alunos com os novos conhecimentos presentes nos objetivos.
Consideramos a adoção da webquest uma forma bastante eficaz para a prática dessa pesquisa supervisionada. No entanto, enfrentamos problemas que consideramos quase culturais: quando apresentamos a possibilidade de acesso à Internet para os alunos, o que eles querem?
A resposta é fácil: Orkut ou Msn ou os dois.
Em vista do exposto, pensamos ser necessário a conscientização dos alunos quanto às possibilidades de obtenção de conhecimentos através da internet. Estimular a construção de uma autonomia por parte dos mesmos, enquanto sujeito que busca, pesquisa e elabora conhecimentos para uma melhor compreensão do mundo em que vive.
Os comportamentos de observação, comparação, registro e documentação, leitura de textos e de imagens devem ser estimulados para a formação do espírito crítico, fundamental para se lidar com uma fonte de informações de volume extraordinário e nem sempre de acordo com a verdade, com a cidadania ou com a ética.
Necessário se torna também, o incentivo de atitudes de respeito ao direito de autoria pelo conhecimento produzido por outrem, esclarecendo que o desrespeito ao mesmo fere princípios éticos e legais.
domingo, 10 de maio de 2009
A Nova Face do Coronelismo
Brasil
Visão de um curral eleitoral
No Rio de Janeiro, traficantes têm seus próprios
candidatos a vereador. Para elegê-los, constrangem
os concorrentes e coagem moradores das favelas
Ronaldo França
Oscar Cabral
Rafael Andrade/Folha Imagem
O CANDIDATO
Claudinho da Academia, acima, é o escolhido pelo bandido Nem para representar os interesses da favela da Rocinha, onde outros são impedidos de entrar: versão criminosa do velho vício da política
VEJA TAMBÉM
Exclusivo on-line
• Em profundidade: A violência no Rio
O Brasil acordou, na semana passada, para o agravamento de um problema que parecia ter chegado a seu limite extremo: o domínio de vastas áreas da cidade do Rio de Janeiro por grupos armados. Já era conhecido o seu poder de mando, com força até para fechar o comércio. O que se descobriu agora é que os bandidos expandiram sua atuação. Além de impor uma lei própria, ordenando execuções e toques de recolher, passaram a tentar influir diretamente no processo eleitoral. Há evidências colhidas nos últimos dias:
• A polícia descobriu que o traficante que comanda a venda de drogas na Rocinha tem seu próprio candidato a vereador nestas eleições. E está coagindo os moradores a fazer sua campanha. Uma candidata a vereadora pelo PT foi ameaçada quando se preparava para fazer corpo a corpo no local. Não era bem-vinda.
• No Complexo do Alemão, favela localizada na Zona Norte da cidade e conhecida pela violência da quadrilha que domina a área, os traficantes também têm sua preferência eleitoral. Insatisfeitos com a presença do candidato a prefeito Marcelo Crivella, do PRB, obrigaram jornalistas a apagar as fotografias de suas máquinas digitais.
• Os milicianos (grupos armados chefiados por policiais, bombeiros e agentes penitenciários que dominam favelas na Zona Oeste da cidade) têm seis candidatos e, da mesma forma que os traficantes, impedem a entrada dos concorrentes em seus territórios. Eles também estão convencendo moradores de que há formas de quebrar o sigilo do voto para conferir se suas ordens foram cumpridas.
Fotos Ana Araujo e Celso Junior/AE
FALTA APONTAR A SOLUÇÃO
O presidente do TSE, Carlos Ayres Britto, à esquerda, e o governador do Rio, Sérgio Cabral: promessas de ações emergenciais, como o uso da Força Nacional, não resolvem
Não é de hoje que a bandidagem exerce alguma influência nas eleições cariocas. Há mais de uma década o tráfico já impõe regras mais ou menos explícitas para o acesso de candidatos às favelas – assim como para permitir a circulação de funcionários das concessionárias de serviços públicos e até de ambulâncias. O que está acontecendo nesta eleição é pior. A polícia encontrou na casa do dono das bocas-de-fumo da Rocinha, o traficante Antônio Bonfim Lopes, mais conhecido como Nem, um documento revelador. Trata-se de um decreto do bandido determinando, entre outras coisas, que todos os moradores sejam obrigados a trabalhar pelo "candidato da comunidade". A polícia já sabe que Nem se referia a Claudinho da Academia, do PSDC, cuja folha corrida registra 22 anotações criminais. Seu advogado alega tratar-se de um homônimo. Seja como for, o caso revela uma tentativa dos traficantes de fazer seus próprios representantes no Legislativo da cidade, numa versão criminosa de antigos vícios de nossa política, como os velhos currais eleitorais que dominaram a história brasileira durante o período da República Velha ou o coronelismo do Nordeste. Circula pelo Rio de Janeiro uma escuta telefônica feita em 2006, com todo jeito de ilegal. Nela, Nem se queixa dos moradores da favela. Argumenta que eles levam os candidatos até lá em troca de dinheiro, o que lhes tira a capacidade de cobrar as promessas. Arvorando-se em defensor da comunidade, o bandido resolveu organizar seu pedaço. É triste.
Diante de tanta desordem, a pergunta é: por que o Rio se tornou uma cidade-refém? Costuma-se afirmar que o problema é a inação do estado. É um diagnóstico torto. O estado está presente, mas de forma errada, precária e, por vezes, criminosa. A tirania dos traficantes é patrocinada por policiais, que lhes vendem proteção e armamento – quando não são eles mesmos os líderes das gangues, as tais milícias que já dominam 171 regiões da cidade. A própria existência das favelas (uma deformação urbanística que se constitui em trincheiras de guerrilha) tem o velado apoio oficial. No alto da Rocinha, em áreas onde não deveria haver barracos, há ligações de água, eletricidade e telefone feitas pelo poder público ou por seus concessionários. Não raro, essas ligações são o atendimento das promessas que os candidatos dos governantes de plantão fazem durante a campanha. Sufocadas pela carência absoluta, as favelas se tornaram um tesouro para os políticos. A felicidade com que eles rumam para as áreas mais carentes da cidade foi interrompida na semana passada pela entrada em cena de um novo ator: o bandido com pretensões eleitorais.
As autoridades, então, se mexeram. O deputado Raul Jungmann, do PPS, presidente da Comissão de Segurança da Câmara dos Deputados, sugeriu que o governo federal enviasse ao Rio a Força Nacional. O governador Sérgio Cabral aceitou a idéia de imediato. Afinal, ele sempre aproveita essas oportunidades para reforçar sua proximidade com o presidente Lula, fato de grande apelo junto aos eleitores. Mas o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Carlos Ayres Britto, não vê a necessidade e determinou que o problema seja resolvido até o próximo dia 11 de agosto. Realmente não é o caso de acionar as tropas federais. O problema não é eleitoral. É de segurança pública. Não adianta reclamar do traficante que não permite a entrada de candidatos. O fato grave é existirem áreas da cidade nas quais quem manda são os bandidos.
A república de Nem
Reprodução
A cidade do Rio de Janeiro tem 4,5 milhões de eleitores, dos quais 500 000 vivem em áreas conflagradas, como a favela da Rocinha, dominada pelo traficante Antônio Bonfim Lopes, conhecido como Nem. Ali existem
22 000 habitações
67 000 moradores
90 seções eleitorais
45 000* eleitores
*Estimativa com base nos números do Instituto Pereira Passos
Fontes: TSE/TRE/IPP
http://veja.abril.com.br/060808/p_066.shtml
Brasil
Visão de um curral eleitoral
No Rio de Janeiro, traficantes têm seus próprios
candidatos a vereador. Para elegê-los, constrangem
os concorrentes e coagem moradores das favelas
Ronaldo França
Oscar Cabral
Rafael Andrade/Folha Imagem
O CANDIDATO
Claudinho da Academia, acima, é o escolhido pelo bandido Nem para representar os interesses da favela da Rocinha, onde outros são impedidos de entrar: versão criminosa do velho vício da política
VEJA TAMBÉM
Exclusivo on-line
• Em profundidade: A violência no Rio
O Brasil acordou, na semana passada, para o agravamento de um problema que parecia ter chegado a seu limite extremo: o domínio de vastas áreas da cidade do Rio de Janeiro por grupos armados. Já era conhecido o seu poder de mando, com força até para fechar o comércio. O que se descobriu agora é que os bandidos expandiram sua atuação. Além de impor uma lei própria, ordenando execuções e toques de recolher, passaram a tentar influir diretamente no processo eleitoral. Há evidências colhidas nos últimos dias:
• A polícia descobriu que o traficante que comanda a venda de drogas na Rocinha tem seu próprio candidato a vereador nestas eleições. E está coagindo os moradores a fazer sua campanha. Uma candidata a vereadora pelo PT foi ameaçada quando se preparava para fazer corpo a corpo no local. Não era bem-vinda.
• No Complexo do Alemão, favela localizada na Zona Norte da cidade e conhecida pela violência da quadrilha que domina a área, os traficantes também têm sua preferência eleitoral. Insatisfeitos com a presença do candidato a prefeito Marcelo Crivella, do PRB, obrigaram jornalistas a apagar as fotografias de suas máquinas digitais.
• Os milicianos (grupos armados chefiados por policiais, bombeiros e agentes penitenciários que dominam favelas na Zona Oeste da cidade) têm seis candidatos e, da mesma forma que os traficantes, impedem a entrada dos concorrentes em seus territórios. Eles também estão convencendo moradores de que há formas de quebrar o sigilo do voto para conferir se suas ordens foram cumpridas.
Fotos Ana Araujo e Celso Junior/AE
FALTA APONTAR A SOLUÇÃO
O presidente do TSE, Carlos Ayres Britto, à esquerda, e o governador do Rio, Sérgio Cabral: promessas de ações emergenciais, como o uso da Força Nacional, não resolvem
Não é de hoje que a bandidagem exerce alguma influência nas eleições cariocas. Há mais de uma década o tráfico já impõe regras mais ou menos explícitas para o acesso de candidatos às favelas – assim como para permitir a circulação de funcionários das concessionárias de serviços públicos e até de ambulâncias. O que está acontecendo nesta eleição é pior. A polícia encontrou na casa do dono das bocas-de-fumo da Rocinha, o traficante Antônio Bonfim Lopes, mais conhecido como Nem, um documento revelador. Trata-se de um decreto do bandido determinando, entre outras coisas, que todos os moradores sejam obrigados a trabalhar pelo "candidato da comunidade". A polícia já sabe que Nem se referia a Claudinho da Academia, do PSDC, cuja folha corrida registra 22 anotações criminais. Seu advogado alega tratar-se de um homônimo. Seja como for, o caso revela uma tentativa dos traficantes de fazer seus próprios representantes no Legislativo da cidade, numa versão criminosa de antigos vícios de nossa política, como os velhos currais eleitorais que dominaram a história brasileira durante o período da República Velha ou o coronelismo do Nordeste. Circula pelo Rio de Janeiro uma escuta telefônica feita em 2006, com todo jeito de ilegal. Nela, Nem se queixa dos moradores da favela. Argumenta que eles levam os candidatos até lá em troca de dinheiro, o que lhes tira a capacidade de cobrar as promessas. Arvorando-se em defensor da comunidade, o bandido resolveu organizar seu pedaço. É triste.
Diante de tanta desordem, a pergunta é: por que o Rio se tornou uma cidade-refém? Costuma-se afirmar que o problema é a inação do estado. É um diagnóstico torto. O estado está presente, mas de forma errada, precária e, por vezes, criminosa. A tirania dos traficantes é patrocinada por policiais, que lhes vendem proteção e armamento – quando não são eles mesmos os líderes das gangues, as tais milícias que já dominam 171 regiões da cidade. A própria existência das favelas (uma deformação urbanística que se constitui em trincheiras de guerrilha) tem o velado apoio oficial. No alto da Rocinha, em áreas onde não deveria haver barracos, há ligações de água, eletricidade e telefone feitas pelo poder público ou por seus concessionários. Não raro, essas ligações são o atendimento das promessas que os candidatos dos governantes de plantão fazem durante a campanha. Sufocadas pela carência absoluta, as favelas se tornaram um tesouro para os políticos. A felicidade com que eles rumam para as áreas mais carentes da cidade foi interrompida na semana passada pela entrada em cena de um novo ator: o bandido com pretensões eleitorais.
As autoridades, então, se mexeram. O deputado Raul Jungmann, do PPS, presidente da Comissão de Segurança da Câmara dos Deputados, sugeriu que o governo federal enviasse ao Rio a Força Nacional. O governador Sérgio Cabral aceitou a idéia de imediato. Afinal, ele sempre aproveita essas oportunidades para reforçar sua proximidade com o presidente Lula, fato de grande apelo junto aos eleitores. Mas o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Carlos Ayres Britto, não vê a necessidade e determinou que o problema seja resolvido até o próximo dia 11 de agosto. Realmente não é o caso de acionar as tropas federais. O problema não é eleitoral. É de segurança pública. Não adianta reclamar do traficante que não permite a entrada de candidatos. O fato grave é existirem áreas da cidade nas quais quem manda são os bandidos.
A república de Nem
Reprodução
A cidade do Rio de Janeiro tem 4,5 milhões de eleitores, dos quais 500 000 vivem em áreas conflagradas, como a favela da Rocinha, dominada pelo traficante Antônio Bonfim Lopes, conhecido como Nem. Ali existem
22 000 habitações
67 000 moradores
90 seções eleitorais
45 000* eleitores
*Estimativa com base nos números do Instituto Pereira Passos
Fontes: TSE/TRE/IPP
http://veja.abril.com.br/060808/p_066.shtml
Visão de um curral eleitoral
No Rio de Janeiro, traficantes têm seus próprios
candidatos a vereador. Para elegê-los, constrangem
os concorrentes e coagem moradores das favelas
Ronaldo França
Oscar Cabral
Rafael Andrade/Folha Imagem
O CANDIDATO
Claudinho da Academia, acima, é o escolhido pelo bandido Nem para representar os interesses da favela da Rocinha, onde outros são impedidos de entrar: versão criminosa do velho vício da política
VEJA TAMBÉM
Exclusivo on-line
• Em profundidade: A violência no Rio
O Brasil acordou, na semana passada, para o agravamento de um problema que parecia ter chegado a seu limite extremo: o domínio de vastas áreas da cidade do Rio de Janeiro por grupos armados. Já era conhecido o seu poder de mando, com força até para fechar o comércio. O que se descobriu agora é que os bandidos expandiram sua atuação. Além de impor uma lei própria, ordenando execuções e toques de recolher, passaram a tentar influir diretamente no processo eleitoral. Há evidências colhidas nos últimos dias:
• A polícia descobriu que o traficante que comanda a venda de drogas na Rocinha tem seu próprio candidato a vereador nestas eleições. E está coagindo os moradores a fazer sua campanha. Uma candidata a vereadora pelo PT foi ameaçada quando se preparava para fazer corpo a corpo no local. Não era bem-vinda.
• No Complexo do Alemão, favela localizada na Zona Norte da cidade e conhecida pela violência da quadrilha que domina a área, os traficantes também têm sua preferência eleitoral. Insatisfeitos com a presença do candidato a prefeito Marcelo Crivella, do PRB, obrigaram jornalistas a apagar as fotografias de suas máquinas digitais.
• Os milicianos (grupos armados chefiados por policiais, bombeiros e agentes penitenciários que dominam favelas na Zona Oeste da cidade) têm seis candidatos e, da mesma forma que os traficantes, impedem a entrada dos concorrentes em seus territórios. Eles também estão convencendo moradores de que há formas de quebrar o sigilo do voto para conferir se suas ordens foram cumpridas.
Fotos Ana Araujo e Celso Junior/AE
FALTA APONTAR A SOLUÇÃO
O presidente do TSE, Carlos Ayres Britto, à esquerda, e o governador do Rio, Sérgio Cabral: promessas de ações emergenciais, como o uso da Força Nacional, não resolvem
Não é de hoje que a bandidagem exerce alguma influência nas eleições cariocas. Há mais de uma década o tráfico já impõe regras mais ou menos explícitas para o acesso de candidatos às favelas – assim como para permitir a circulação de funcionários das concessionárias de serviços públicos e até de ambulâncias. O que está acontecendo nesta eleição é pior. A polícia encontrou na casa do dono das bocas-de-fumo da Rocinha, o traficante Antônio Bonfim Lopes, mais conhecido como Nem, um documento revelador. Trata-se de um decreto do bandido determinando, entre outras coisas, que todos os moradores sejam obrigados a trabalhar pelo "candidato da comunidade". A polícia já sabe que Nem se referia a Claudinho da Academia, do PSDC, cuja folha corrida registra 22 anotações criminais. Seu advogado alega tratar-se de um homônimo. Seja como for, o caso revela uma tentativa dos traficantes de fazer seus próprios representantes no Legislativo da cidade, numa versão criminosa de antigos vícios de nossa política, como os velhos currais eleitorais que dominaram a história brasileira durante o período da República Velha ou o coronelismo do Nordeste. Circula pelo Rio de Janeiro uma escuta telefônica feita em 2006, com todo jeito de ilegal. Nela, Nem se queixa dos moradores da favela. Argumenta que eles levam os candidatos até lá em troca de dinheiro, o que lhes tira a capacidade de cobrar as promessas. Arvorando-se em defensor da comunidade, o bandido resolveu organizar seu pedaço. É triste.
Diante de tanta desordem, a pergunta é: por que o Rio se tornou uma cidade-refém? Costuma-se afirmar que o problema é a inação do estado. É um diagnóstico torto. O estado está presente, mas de forma errada, precária e, por vezes, criminosa. A tirania dos traficantes é patrocinada por policiais, que lhes vendem proteção e armamento – quando não são eles mesmos os líderes das gangues, as tais milícias que já dominam 171 regiões da cidade. A própria existência das favelas (uma deformação urbanística que se constitui em trincheiras de guerrilha) tem o velado apoio oficial. No alto da Rocinha, em áreas onde não deveria haver barracos, há ligações de água, eletricidade e telefone feitas pelo poder público ou por seus concessionários. Não raro, essas ligações são o atendimento das promessas que os candidatos dos governantes de plantão fazem durante a campanha. Sufocadas pela carência absoluta, as favelas se tornaram um tesouro para os políticos. A felicidade com que eles rumam para as áreas mais carentes da cidade foi interrompida na semana passada pela entrada em cena de um novo ator: o bandido com pretensões eleitorais.
As autoridades, então, se mexeram. O deputado Raul Jungmann, do PPS, presidente da Comissão de Segurança da Câmara dos Deputados, sugeriu que o governo federal enviasse ao Rio a Força Nacional. O governador Sérgio Cabral aceitou a idéia de imediato. Afinal, ele sempre aproveita essas oportunidades para reforçar sua proximidade com o presidente Lula, fato de grande apelo junto aos eleitores. Mas o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Carlos Ayres Britto, não vê a necessidade e determinou que o problema seja resolvido até o próximo dia 11 de agosto. Realmente não é o caso de acionar as tropas federais. O problema não é eleitoral. É de segurança pública. Não adianta reclamar do traficante que não permite a entrada de candidatos. O fato grave é existirem áreas da cidade nas quais quem manda são os bandidos.
A república de Nem
Reprodução
A cidade do Rio de Janeiro tem 4,5 milhões de eleitores, dos quais 500 000 vivem em áreas conflagradas, como a favela da Rocinha, dominada pelo traficante Antônio Bonfim Lopes, conhecido como Nem. Ali existem
22 000 habitações
67 000 moradores
90 seções eleitorais
45 000* eleitores
*Estimativa com base nos números do Instituto Pereira Passos
Fontes: TSE/TRE/IPP
http://veja.abril.com.br/060808/p_066.shtml
Brasil
Visão de um curral eleitoral
No Rio de Janeiro, traficantes têm seus próprios
candidatos a vereador. Para elegê-los, constrangem
os concorrentes e coagem moradores das favelas
Ronaldo França
Oscar Cabral
Rafael Andrade/Folha Imagem
O CANDIDATO
Claudinho da Academia, acima, é o escolhido pelo bandido Nem para representar os interesses da favela da Rocinha, onde outros são impedidos de entrar: versão criminosa do velho vício da política
VEJA TAMBÉM
Exclusivo on-line
• Em profundidade: A violência no Rio
O Brasil acordou, na semana passada, para o agravamento de um problema que parecia ter chegado a seu limite extremo: o domínio de vastas áreas da cidade do Rio de Janeiro por grupos armados. Já era conhecido o seu poder de mando, com força até para fechar o comércio. O que se descobriu agora é que os bandidos expandiram sua atuação. Além de impor uma lei própria, ordenando execuções e toques de recolher, passaram a tentar influir diretamente no processo eleitoral. Há evidências colhidas nos últimos dias:
• A polícia descobriu que o traficante que comanda a venda de drogas na Rocinha tem seu próprio candidato a vereador nestas eleições. E está coagindo os moradores a fazer sua campanha. Uma candidata a vereadora pelo PT foi ameaçada quando se preparava para fazer corpo a corpo no local. Não era bem-vinda.
• No Complexo do Alemão, favela localizada na Zona Norte da cidade e conhecida pela violência da quadrilha que domina a área, os traficantes também têm sua preferência eleitoral. Insatisfeitos com a presença do candidato a prefeito Marcelo Crivella, do PRB, obrigaram jornalistas a apagar as fotografias de suas máquinas digitais.
• Os milicianos (grupos armados chefiados por policiais, bombeiros e agentes penitenciários que dominam favelas na Zona Oeste da cidade) têm seis candidatos e, da mesma forma que os traficantes, impedem a entrada dos concorrentes em seus territórios. Eles também estão convencendo moradores de que há formas de quebrar o sigilo do voto para conferir se suas ordens foram cumpridas.
Fotos Ana Araujo e Celso Junior/AE
FALTA APONTAR A SOLUÇÃO
O presidente do TSE, Carlos Ayres Britto, à esquerda, e o governador do Rio, Sérgio Cabral: promessas de ações emergenciais, como o uso da Força Nacional, não resolvem
Não é de hoje que a bandidagem exerce alguma influência nas eleições cariocas. Há mais de uma década o tráfico já impõe regras mais ou menos explícitas para o acesso de candidatos às favelas – assim como para permitir a circulação de funcionários das concessionárias de serviços públicos e até de ambulâncias. O que está acontecendo nesta eleição é pior. A polícia encontrou na casa do dono das bocas-de-fumo da Rocinha, o traficante Antônio Bonfim Lopes, mais conhecido como Nem, um documento revelador. Trata-se de um decreto do bandido determinando, entre outras coisas, que todos os moradores sejam obrigados a trabalhar pelo "candidato da comunidade". A polícia já sabe que Nem se referia a Claudinho da Academia, do PSDC, cuja folha corrida registra 22 anotações criminais. Seu advogado alega tratar-se de um homônimo. Seja como for, o caso revela uma tentativa dos traficantes de fazer seus próprios representantes no Legislativo da cidade, numa versão criminosa de antigos vícios de nossa política, como os velhos currais eleitorais que dominaram a história brasileira durante o período da República Velha ou o coronelismo do Nordeste. Circula pelo Rio de Janeiro uma escuta telefônica feita em 2006, com todo jeito de ilegal. Nela, Nem se queixa dos moradores da favela. Argumenta que eles levam os candidatos até lá em troca de dinheiro, o que lhes tira a capacidade de cobrar as promessas. Arvorando-se em defensor da comunidade, o bandido resolveu organizar seu pedaço. É triste.
Diante de tanta desordem, a pergunta é: por que o Rio se tornou uma cidade-refém? Costuma-se afirmar que o problema é a inação do estado. É um diagnóstico torto. O estado está presente, mas de forma errada, precária e, por vezes, criminosa. A tirania dos traficantes é patrocinada por policiais, que lhes vendem proteção e armamento – quando não são eles mesmos os líderes das gangues, as tais milícias que já dominam 171 regiões da cidade. A própria existência das favelas (uma deformação urbanística que se constitui em trincheiras de guerrilha) tem o velado apoio oficial. No alto da Rocinha, em áreas onde não deveria haver barracos, há ligações de água, eletricidade e telefone feitas pelo poder público ou por seus concessionários. Não raro, essas ligações são o atendimento das promessas que os candidatos dos governantes de plantão fazem durante a campanha. Sufocadas pela carência absoluta, as favelas se tornaram um tesouro para os políticos. A felicidade com que eles rumam para as áreas mais carentes da cidade foi interrompida na semana passada pela entrada em cena de um novo ator: o bandido com pretensões eleitorais.
As autoridades, então, se mexeram. O deputado Raul Jungmann, do PPS, presidente da Comissão de Segurança da Câmara dos Deputados, sugeriu que o governo federal enviasse ao Rio a Força Nacional. O governador Sérgio Cabral aceitou a idéia de imediato. Afinal, ele sempre aproveita essas oportunidades para reforçar sua proximidade com o presidente Lula, fato de grande apelo junto aos eleitores. Mas o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Carlos Ayres Britto, não vê a necessidade e determinou que o problema seja resolvido até o próximo dia 11 de agosto. Realmente não é o caso de acionar as tropas federais. O problema não é eleitoral. É de segurança pública. Não adianta reclamar do traficante que não permite a entrada de candidatos. O fato grave é existirem áreas da cidade nas quais quem manda são os bandidos.
A república de Nem
Reprodução
A cidade do Rio de Janeiro tem 4,5 milhões de eleitores, dos quais 500 000 vivem em áreas conflagradas, como a favela da Rocinha, dominada pelo traficante Antônio Bonfim Lopes, conhecido como Nem. Ali existem
22 000 habitações
67 000 moradores
90 seções eleitorais
45 000* eleitores
*Estimativa com base nos números do Instituto Pereira Passos
Fontes: TSE/TRE/IPP
http://veja.abril.com.br/060808/p_066.shtml
sábado, 2 de maio de 2009
sábado, 4 de abril de 2009
Iluminismo-Guimarães Rosa-802
O que foi ou o que representou o Iluminismo?
Foi a ideologia originada na Europa entre os séculos XVII e XVIII como fruto dos anseios da burguesia na época.
Que idéia podemos indicar como base do Iluminismo?
O Racionalismo
Como o Iluminismo influenciou a economia ?
Através da escola do Liberalismo Econômico, de Adam Smith, e da escola Fisiocrática,de François Quesnay
O que caracterizou a escola do Liberalismo Econômico?
A adoção de uma economia livre, sem intervenção do Estado, dirigida pelo mercado (lei da oferta e da procura).
Qual a relação entre os princípios iluministas e o desenvolvimento comercial ?
Liberdade- Todo homem deve ser livre para vender e comprar (fim da escravidão)
Igualdade- Todo homem é igual perante a lei ( responsabilidade jurídica)
Tolerância- As possíveis diferenças entre os homens NÃO importam para o comércio.]
Caracterize o Iluminismo.
Racionalismo, liberdade, tolerância, igualdade jurídica; combate ao Antigo Regime e à Igreja.
O que motivou a guerra pela independência dos E.U.A. ?
A mudança de atitude da metrópole inglesa, pretendo reforçar os laços da dominação colonial sobre suas treze colônias da América do Norte.
Qual a relação da Guerra dos Sete Anos com a independência dos E.U.A. ?
A Guerra dos Sete Anos foi um dos principais fatores da crise econômica instalada na Inglaterra, levando a potência européia a procurar uma compensação financeira promovendo um arrocho sobre a arrecadação tibutária relativa às suas treze colônias, levando-as à revolta e consequente luta pela independência.
O que explica a adoção de diferentes tipos de colonização na Treze Colônias ?
O clima das colõnias localizadas no centro e norte da costa leste da América do Norte é semelhante ao da Europa (Temperado Oceânico) não permitindo, portanto, a implantação de um sistema de exploração econômica baseado na produção de gêneros tropicais,abrindo espaço para a colonização de povoamento.
Nas colônias do Sul, o clima mais quente (subtropical) permitiu a implantação do sistema de exploração baseado na produção de algodão.
Foi a ideologia originada na Europa entre os séculos XVII e XVIII como fruto dos anseios da burguesia na época.
Que idéia podemos indicar como base do Iluminismo?
O Racionalismo
Como o Iluminismo influenciou a economia ?
Através da escola do Liberalismo Econômico, de Adam Smith, e da escola Fisiocrática,de François Quesnay
O que caracterizou a escola do Liberalismo Econômico?
A adoção de uma economia livre, sem intervenção do Estado, dirigida pelo mercado (lei da oferta e da procura).
Qual a relação entre os princípios iluministas e o desenvolvimento comercial ?
Liberdade- Todo homem deve ser livre para vender e comprar (fim da escravidão)
Igualdade- Todo homem é igual perante a lei ( responsabilidade jurídica)
Tolerância- As possíveis diferenças entre os homens NÃO importam para o comércio.]
Caracterize o Iluminismo.
Racionalismo, liberdade, tolerância, igualdade jurídica; combate ao Antigo Regime e à Igreja.
O que motivou a guerra pela independência dos E.U.A. ?
A mudança de atitude da metrópole inglesa, pretendo reforçar os laços da dominação colonial sobre suas treze colônias da América do Norte.
Qual a relação da Guerra dos Sete Anos com a independência dos E.U.A. ?
A Guerra dos Sete Anos foi um dos principais fatores da crise econômica instalada na Inglaterra, levando a potência européia a procurar uma compensação financeira promovendo um arrocho sobre a arrecadação tibutária relativa às suas treze colônias, levando-as à revolta e consequente luta pela independência.
O que explica a adoção de diferentes tipos de colonização na Treze Colônias ?
O clima das colõnias localizadas no centro e norte da costa leste da América do Norte é semelhante ao da Europa (Temperado Oceânico) não permitindo, portanto, a implantação de um sistema de exploração econômica baseado na produção de gêneros tropicais,abrindo espaço para a colonização de povoamento.
Nas colônias do Sul, o clima mais quente (subtropical) permitiu a implantação do sistema de exploração baseado na produção de algodão.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
São João-Guimarães Rosa-Ensino Médio-1
Coordenadas geográficas
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Mapa da Terra mostrando as linhas de latitude (horizontalmente) e longitude (verticalmente), Eckert VI projection; [1]
O sistema de mapeamento da Terra através de coordenadas geográficas expressa qualquer posição horizontal no planeta através de duas das três coordenadas existentes num sistema esférico de coordenadas, alinhadas com o eixo de rotação da Terra. Herdeiro das teorias dos antigos babilônios, expandido pelo famoso pensador e geógrafo grego Ptolomeu, um círculo completo é dividido em 360 graus (360°).
Índice
[esconder]
* 1 Localização absoluta
* 2 Sistemas de Coordenadas Geográficas
o 2.1 Graus - Minutos - Segundos
o 2.2 Graus - Minutos Decimais
o 2.3 Graus Decimais
o 2.4 Universal Transversa de Mercator
* 3 Referências
* 4 Ver também
[editar] Localização absoluta
Para localizar qualquer lugar na superficíe terrestre de forma exata é necessário usar duas indicações, uma letra e um número. Temos que utilizar elementos de referência que nos permitam localizar com exatidão qualquer lugar da Terra. A rede cartográfica ou geográfica dá-nos a indicação das coordenadas geográficas. Os pontos de orientação que acabamos de estudar dão um rumo, isto é, uma direção, mas não permitem localizar com exatidão um ponto na superfície terrestre.
Assim, quando dizemos que a área X está a leste de Y, não estamos dando a localização precisa dessa área, mas apenas indicando uma direção. Para saber com exatidão onde se localiza qualquer ponto da superfície terrestre — uma cidade, um porto, uma ilha, etc. — usamos as coordenadas geográficas. As coordenadas geográficas baseiam-se em linhas imaginárias traçadas sobre o globo terrestre:
* os paralelos são linhas paralelas ao equador — a própria linha imaginária do equador é um paralelo;
* os meridianos são linhas semicirculares, isto é, linhas de 180° — eles vão do Pólo Norte ao Pólo Sul e cruzam com os paralelos.
Cada meridiano possui o seu antimeridiano, isto é, um meridiano oposto que, junto com ele, forma uma circunferência. Todos os meridianos têm o mesmo tamanho. Convencionou-se que o meridiano de Greenwich, que passa pelos arredores da cidade de Londres, na Inglaterra, é o meridiano principal.
A partir dos paralelos e meridianos, estabeleceram-se as coordenadas geográficas, que são medidas em graus, para localizar qualquer ponto da superfície terrestre.
[editar] Sistemas de Coordenadas Geográficas
Existem pelo menos quatro modos de designar uma localização exata para qualquer ponto no globo terrestre.
Nos três primeiros sistemas, o globo é dividido em latitudes, que vão de 0 a 90 graus (Norte ou Sul) e longitudes, que vão de 0 a 180 graus (Leste ou Oeste). Para efeitos práticos, usam-se as siglas internacionais para os pontos cardeais: N=Norte, S=Sul, E=Leste/Este, W=Oeste.
Para as latitudes, o valor de cada unidade é bem definido, pois a metade do grande círculo tem 20.003,93km, dividindo este último por 180, conclui-se que um grau (°) equivale a 111,133km. Dividindo um grau por 60, toma-se que um minuto (') equivale a 1.852,22m. Dividindo um minuto por 60, tem-se que um segundo (") equivale a 30,87m,
Para as longitudes, há um valor específico para cada posição, que aumenta de 0 nos Pólos até a Linha do Equador, onde está o seu valor máximo.
Como forma de se demonstrar as diferenças entre cada um dos sistemas, usar-se-á o exemplo para as coordenadas de um lugar específico: a Catedral Metropolitana de Campinas.
[editar] Graus - Minutos - Segundos
Neste sistema, cada grau é dividido em 60 minutos, que por sua vez se subdividem, cada um, em 60 segundos. A partir daí, os segundos podem ser divididos decimalmente em frações cada vez menores.
Deste modo, a localização da Catedral neste sistema é: 22° 54' 21.64"S 47° 03' 38.06"W
[editar] Graus - Minutos Decimais
Neste sistema, cada grau é dividido em 60 minutos, que por sua vez são divididos decimalmente.
A localização da Catedral fica sendo: 22° 54.361'S 47° 3.634'W
[editar] Graus Decimais
Neste sistema, cada grau é dividido em frações decimais. A forma de nomeação difere um pouco dos dois primeiros sistemas: a latitude recebe a abreviatura lat e a longitude, lon. Há valores positivos e negativos. Os valores positivos são para o Norte (latitude) e o Leste (longitude) e não recebem um símbolo específico. Os valores negativos são para o Sul (latitude) e o Oeste (longitude), sendo acrescidos do símbolo -.
A Catedral tem aqui esta localização: lat -22.906014° lon -47.06057
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Mapa da Terra mostrando as linhas de latitude (horizontalmente) e longitude (verticalmente), Eckert VI projection; [1]
O sistema de mapeamento da Terra através de coordenadas geográficas expressa qualquer posição horizontal no planeta através de duas das três coordenadas existentes num sistema esférico de coordenadas, alinhadas com o eixo de rotação da Terra. Herdeiro das teorias dos antigos babilônios, expandido pelo famoso pensador e geógrafo grego Ptolomeu, um círculo completo é dividido em 360 graus (360°).
Índice
[esconder]
* 1 Localização absoluta
* 2 Sistemas de Coordenadas Geográficas
o 2.1 Graus - Minutos - Segundos
o 2.2 Graus - Minutos Decimais
o 2.3 Graus Decimais
o 2.4 Universal Transversa de Mercator
* 3 Referências
* 4 Ver também
[editar] Localização absoluta
Para localizar qualquer lugar na superficíe terrestre de forma exata é necessário usar duas indicações, uma letra e um número. Temos que utilizar elementos de referência que nos permitam localizar com exatidão qualquer lugar da Terra. A rede cartográfica ou geográfica dá-nos a indicação das coordenadas geográficas. Os pontos de orientação que acabamos de estudar dão um rumo, isto é, uma direção, mas não permitem localizar com exatidão um ponto na superfície terrestre.
Assim, quando dizemos que a área X está a leste de Y, não estamos dando a localização precisa dessa área, mas apenas indicando uma direção. Para saber com exatidão onde se localiza qualquer ponto da superfície terrestre — uma cidade, um porto, uma ilha, etc. — usamos as coordenadas geográficas. As coordenadas geográficas baseiam-se em linhas imaginárias traçadas sobre o globo terrestre:
* os paralelos são linhas paralelas ao equador — a própria linha imaginária do equador é um paralelo;
* os meridianos são linhas semicirculares, isto é, linhas de 180° — eles vão do Pólo Norte ao Pólo Sul e cruzam com os paralelos.
Cada meridiano possui o seu antimeridiano, isto é, um meridiano oposto que, junto com ele, forma uma circunferência. Todos os meridianos têm o mesmo tamanho. Convencionou-se que o meridiano de Greenwich, que passa pelos arredores da cidade de Londres, na Inglaterra, é o meridiano principal.
A partir dos paralelos e meridianos, estabeleceram-se as coordenadas geográficas, que são medidas em graus, para localizar qualquer ponto da superfície terrestre.
[editar] Sistemas de Coordenadas Geográficas
Existem pelo menos quatro modos de designar uma localização exata para qualquer ponto no globo terrestre.
Nos três primeiros sistemas, o globo é dividido em latitudes, que vão de 0 a 90 graus (Norte ou Sul) e longitudes, que vão de 0 a 180 graus (Leste ou Oeste). Para efeitos práticos, usam-se as siglas internacionais para os pontos cardeais: N=Norte, S=Sul, E=Leste/Este, W=Oeste.
Para as latitudes, o valor de cada unidade é bem definido, pois a metade do grande círculo tem 20.003,93km, dividindo este último por 180, conclui-se que um grau (°) equivale a 111,133km. Dividindo um grau por 60, toma-se que um minuto (') equivale a 1.852,22m. Dividindo um minuto por 60, tem-se que um segundo (") equivale a 30,87m,
Para as longitudes, há um valor específico para cada posição, que aumenta de 0 nos Pólos até a Linha do Equador, onde está o seu valor máximo.
Como forma de se demonstrar as diferenças entre cada um dos sistemas, usar-se-á o exemplo para as coordenadas de um lugar específico: a Catedral Metropolitana de Campinas.
[editar] Graus - Minutos - Segundos
Neste sistema, cada grau é dividido em 60 minutos, que por sua vez se subdividem, cada um, em 60 segundos. A partir daí, os segundos podem ser divididos decimalmente em frações cada vez menores.
Deste modo, a localização da Catedral neste sistema é: 22° 54' 21.64"S 47° 03' 38.06"W
[editar] Graus - Minutos Decimais
Neste sistema, cada grau é dividido em 60 minutos, que por sua vez são divididos decimalmente.
A localização da Catedral fica sendo: 22° 54.361'S 47° 3.634'W
[editar] Graus Decimais
Neste sistema, cada grau é dividido em frações decimais. A forma de nomeação difere um pouco dos dois primeiros sistemas: a latitude recebe a abreviatura lat e a longitude, lon. Há valores positivos e negativos. Os valores positivos são para o Norte (latitude) e o Leste (longitude) e não recebem um símbolo específico. Os valores negativos são para o Sul (latitude) e o Oeste (longitude), sendo acrescidos do símbolo -.
A Catedral tem aqui esta localização: lat -22.906014° lon -47.06057
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
CIEP Paulo Mendes Campos Geografia902-903
Geografia Por Denis Richter Assinar feed do autor
drichtersa@hotmail.com
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Ao visualizarmos um mapa das Américas percebemos logo de início que é um continente muito extenso no sentido Norte – Sul. Em conseqüência, suas características regionais são muito claras, sendo difícil de acreditar que temos neste mesmo espaço continental região tropicais e outras polares. Observamos também uma significativa diferença nas questões sócio-econômicas aonde nações ricas fazem fronteira com países mergulhados no caos econômico. Essas diversidades espaciais existentes no continente americanas tornam necessário uma regionalização sobre o mesmo, gerando assim cinco divisões em seu território.
Abordagens Físicas
Para facilitar a compreensão física do continente americano, observou-se que ao longo das Américas existem duas distintas e visíveis cadeias de montanhas (Montanhas Rochosas, ao norte e Cordilheira dos Andes, ao sul) e no centro do continente há um “istmo” que une as duas partes (Norte e Sul). Em razão disto, divide-se a América em três partes: América do Norte, América Central e América do Sul. Essa divisão é muito difundida em todo o mundo, pois nós brasileiros nos consideramos muito mais sul-americanos do que americanos em si. Esta classificação ordena os países americanos a partir de suas características naturais, onde os aspectos físicos são observados como maior diferencial entre as regiões.
Abordagens Humanas
Por outro lado, caracterizar o continente americano a partir dos aspectos sócio-econômicos nos geram uma divisão totalmente adversa da anterior. Nesta abordagem classificamos a América em duas grandes partes: América Anglo-Saxônica e América Latina. Isto é resultado de uma análise sobre a cultura/colonização e economia local, pois como os Estados Unidos e o Canadá foram colonizados pelos ingleses (em grande parte) e os outros países da América sofreram a conquista e colonização dos espanhóis e portugueses, em sua maioria, foi possível dividir todo o continente nestas duas regiões. Ou seja, a América Anglo-Saxônica provém das culturas dos Saxões europeus e a América Latina dos europeus latinos. Atualmente podemos observar uma diferença também na questão econômica em razão de que os Estados Unidos e Canadá (América Anglo-Saxônica) são países desenvolvidos e, em contraponto, os países da América Latina se encontram nos níveis econômicos de subdesenvolvimento ou em processo de desenvolvimento.
Dessa forma, as classificações existentes nos facilitam interpretar e conhecer melhor o continente americano, que é centralizador de grandes diferenças, seja nas características físicas ou humanas do seu território. Demonstrando que sua extensão longitudinal baseia-se na regionalização do espaço, transformando este continente numa região de inúmeras riquezas culturais e naturais.
As Américas – Divisão Física
América do Norte Canadá, Estados Unidos, Groenlândia e México.
América Central Antígua e Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize, Costa Rica, Cuba, Dominica, El Salvador, Granada, Guatemala, Haiti, Honduras, Jamaica, Nicarágua, Panamá, República Dominicana, Santa Lúcia, São Cristóvão e Névis, São Vicente e Granadinas, Trinidad e Tobago.
América do Sul Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela.
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As Américas – Divisão Humana
América Anglo-Saxônica Canadá, Groenlândia e Estados Unidos.
América Latina Antígua e Barbuda, Argentina, Bahamas, Barbados, Belize, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Dominica, El Salvador, Equador, Granada, Guatemala, Guiana, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Santa Lúcia, São Cristóvão e Névis, São Vicente e Granadinas, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai e Venezuela.
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drichtersa@hotmail.com
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Ao visualizarmos um mapa das Américas percebemos logo de início que é um continente muito extenso no sentido Norte – Sul. Em conseqüência, suas características regionais são muito claras, sendo difícil de acreditar que temos neste mesmo espaço continental região tropicais e outras polares. Observamos também uma significativa diferença nas questões sócio-econômicas aonde nações ricas fazem fronteira com países mergulhados no caos econômico. Essas diversidades espaciais existentes no continente americanas tornam necessário uma regionalização sobre o mesmo, gerando assim cinco divisões em seu território.
Abordagens Físicas
Para facilitar a compreensão física do continente americano, observou-se que ao longo das Américas existem duas distintas e visíveis cadeias de montanhas (Montanhas Rochosas, ao norte e Cordilheira dos Andes, ao sul) e no centro do continente há um “istmo” que une as duas partes (Norte e Sul). Em razão disto, divide-se a América em três partes: América do Norte, América Central e América do Sul. Essa divisão é muito difundida em todo o mundo, pois nós brasileiros nos consideramos muito mais sul-americanos do que americanos em si. Esta classificação ordena os países americanos a partir de suas características naturais, onde os aspectos físicos são observados como maior diferencial entre as regiões.
Abordagens Humanas
Por outro lado, caracterizar o continente americano a partir dos aspectos sócio-econômicos nos geram uma divisão totalmente adversa da anterior. Nesta abordagem classificamos a América em duas grandes partes: América Anglo-Saxônica e América Latina. Isto é resultado de uma análise sobre a cultura/colonização e economia local, pois como os Estados Unidos e o Canadá foram colonizados pelos ingleses (em grande parte) e os outros países da América sofreram a conquista e colonização dos espanhóis e portugueses, em sua maioria, foi possível dividir todo o continente nestas duas regiões. Ou seja, a América Anglo-Saxônica provém das culturas dos Saxões europeus e a América Latina dos europeus latinos. Atualmente podemos observar uma diferença também na questão econômica em razão de que os Estados Unidos e Canadá (América Anglo-Saxônica) são países desenvolvidos e, em contraponto, os países da América Latina se encontram nos níveis econômicos de subdesenvolvimento ou em processo de desenvolvimento.
Dessa forma, as classificações existentes nos facilitam interpretar e conhecer melhor o continente americano, que é centralizador de grandes diferenças, seja nas características físicas ou humanas do seu território. Demonstrando que sua extensão longitudinal baseia-se na regionalização do espaço, transformando este continente numa região de inúmeras riquezas culturais e naturais.
As Américas – Divisão Física
América do Norte Canadá, Estados Unidos, Groenlândia e México.
América Central Antígua e Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize, Costa Rica, Cuba, Dominica, El Salvador, Granada, Guatemala, Haiti, Honduras, Jamaica, Nicarágua, Panamá, República Dominicana, Santa Lúcia, São Cristóvão e Névis, São Vicente e Granadinas, Trinidad e Tobago.
América do Sul Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela.
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As Américas – Divisão Humana
América Anglo-Saxônica Canadá, Groenlândia e Estados Unidos.
América Latina Antígua e Barbuda, Argentina, Bahamas, Barbados, Belize, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Dominica, El Salvador, Equador, Granada, Guatemala, Guiana, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Santa Lúcia, São Cristóvão e Névis, São Vicente e Granadinas, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai e Venezuela.
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
A Filosofia
A atitude filosófica
Imaginemos, agora, alguém que tomasse uma decisão muito estranha e começasse a fazer perguntas inesperadas. Em vez de "que horas são?" ou "que dia é hoje?", perguntasse: O que é o tempo? Em vez de dizer "está sonhando" ou "ficou maluca", quisesse saber: O que é o sonho? A loucura? A razão?
Se essa pessoa fosse substituindo sucessivamente suas perguntas, suas afirmações por outras: “Onde há fumaça, há fogo”, ou “não saia na chuva para não ficar resfriado”, por: O que é causa? O que é efeito?; “seja objetivo”, ou “eles são muito subjetivos”, por: O que é a objetividade? O que é a subjetividade?; “Esta casa é mais bonita do que a outra”, por: O que é “mais”? O que é “menos”? O que é o belo?
Em vez de gritar “mentiroso!”, questionasse: O que é a verdade? O que é o falso? O que é o erro? O que é a mentira? Quando existe verdade e por quê? Quando existe ilusão e por quê?
Se, em vez de falar na subjetividade dos namorados, inquirisse: O que é o amor? O que é o desejo? O que são os sentimentos?
Se, em lugar de discorrer tranqüilamente sobre “maior” e “menor” ou “claro” e “escuro”, resolvesse investigar: O que é a quantidade? O que é a qualidade?
E se, em vez de afirmar que gosta de alguém porque possui as mesmas idéias, os mesmos gostos, as mesmas preferências e os mesmos valores, preferisse analisar: O que é um valor? O que é um valor moral? O que é um valor artístico? O que é a moral? O que é a vontade? O que é a liberdade?
Alguém que tomasse essa decisão, estaria tomando distância da vida cotidiana e de si mesmo, teria passado a indagar o que são as crenças e os sentimentos que alimentam, silenciosamente, nossa existência.
Ao tomar essa distância, estaria interrogando a si mesmo, desejando conhecer por que cremos no que cremos, por que sentimos o que sentimos e o que são nossas crenças e nossos sentimentos. Esse alguém estaria começando a adotar o que chamamos de atitude filosófica.
Assim, uma primeira resposta à pergunta “O que é Filosofia?” poderia ser: A decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e compreendido.
Perguntaram, certa vez, a um filósofo: “Para que Filosofia?”. E ele respondeu: “Para não darmos nossa aceitação imediata às coisas, sem maiores considerações”.
A atitude crítica
A primeira característica da atitude filosófica é negativa, isto é, um dizer não ao senso comum, aos pré-conceitos, aos pré-juízos, aos fatos e às idéias da experiência cotidiana, ao que “todo mundo diz e pensa”, ao estabelecido.
A segunda característica da atitude filosófica é positiva, isto é, uma interrogação sobre o que são as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos. É também uma interrogação sobre o porquê disso tudo e de nós, e uma interrogação sobre como tudo isso é assim e não de outra maneira. O que é? Por que é? Como é? Essas são as indagações fundamentais da atitude filosófica.
A face negativa e a face positiva da atitude filosófica constituem o que chamamos de atitude crítica e pensamento crítico.
A Filosofia começa dizendo não às crenças e aos preconceitos do senso comum e, portanto, começa dizendo que não sabemos o que imaginávamos saber; por isso, o patrono da Filosofia, o grego Sócrates, afirmava que a primeira e fundamental verdade filosófica é dizer: “Sei que nada sei”. Para o discípulo de Sócrates, o filósofo grego Platão, a Filosofia começa com a admiração; já o discípulo de Platão, o filósofo Aristóteles, acreditava que a Filosofia começa com o espanto.
Admiração e espanto significam: tomamos distância do nosso mundo costumeiro, através de nosso pensamento, olhando-o como se nunca o tivéssemos visto antes, como se não tivéssemos tido família, amigos, professores, livros e outros meios de comunicação que nos tivessem dito o que o mundo é; como se estivéssemos acabando de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos perguntar o que é, por que é e como é o mundo, e precisássemos perguntar também o que somos, por que somos e como somos.
Para que Filosofia?
Ora, muitos fazem uma outra pergunta: afinal, para que Filosofia?
É uma pergunta interessante. Não vemos nem ouvimos ninguém perguntar, por exemplo, para que matemática ou física? Para que geografia ou geologia? Para que história ou sociologia? Para que biologia ou psicologia? Para que astronomia ou química? Para que pintura, literatura, música ou dança? Mas todo mundo acha muito natural perguntar: Para que Filosofia?
Em geral, essa pergunta costuma receber uma resposta irônica, conhecida dos estudantes de Filosofia: “A Filosofia é uma ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual”. Ou seja, a Filosofia não serve para nada. Por isso, se costuma chamar de “filósofo” alguém sempre distraído, com a cabeça no mundo da lua, pensando e dizendo coisas que ninguém entende e que são perfeitamente inúteis.
Essa pergunta, “Para que Filosofia?”, tem a sua razão de ser.
Em nossa cultura e em nossa sociedade, costumamos considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática, muito visível e de utilidade imediata.
Por isso, ninguém pergunta para que as ciências, pois todo mundo imagina ver a utilidade das ciências nos produtos da técnica, isto é, na aplicação científica à realidade.
Todo mundo também imagina ver a utilidade das artes, tanto por causa da compra e venda das obras de arte, quanto porque nossa cultura vê os artistas como gênios que merecem ser valorizados para o elogio da humanidade. Ninguém, todavia, consegue ver para que serviria a Filosofia, donde dizer-se: não serve para coisa alguma.
Parece, porém, que o senso comum não enxerga algo que os cientistas sabem muito bem. As ciências pretendem ser conhecimentos verdadeiros, obtidos graças a procedimentos rigorosos de pensamento; pretendem agir sobre a realidade, através de instrumentos e objetos técnicos; pretendem fazer progressos nos conhecimentos, corrigindo-os e aumentando-os.
Ora, todas essas pretensões das ciências pressupõem que elas acreditam na existência da verdade, de procedimentos corretos para bem usar o pensamento, na tecnologia como aplicação prática de teorias, na racionalidade dos conhecimentos, porque podem ser corrigidos e aperfeiçoados.
Verdade, pensamento, procedimentos especiais para conhecer fatos, relação entre teoria e prática, correção e acúmulo de saberes: tudo isso não é ciência, são questões filosóficas. O cientista parte delas como questões já respondidas, mas é a Filosofia quem as formula e busca respostas para elas.
Assim, o trabalho das ciências pressupõe, como condição, o trabalho da Filosofia, mesmo que o cientista não seja filósofo. No entanto, como apenas os cientistas e filósofos sabem disso, o senso comum continua afirmando que a Filosofia não serve para nada.
Para dar alguma utilidade à Filosofia, muitos consideram que, de fato, a Filosofia não serviria para nada, se “servir” fosse entendido como a possibilidade de fazer usos técnicos dos produtos filosóficos ou dar-lhes utilidade econômica, obtendo lucros com eles; consideram também que a Filosofia nada teria a ver com a ciência e a técnica.
Para quem pensa dessa forma, o principal para a Filosofia não seriam os conhecimentos (que ficam por conta da ciência), nem as aplicações de teorias (que ficam por conta da tecnologia), mas o ensinamento moral ou ético. A Filosofia seria a arte do bem viver. Estudando as paixões e os vícios humanos, a liberdade e a vontade, analisando a capacidade de nossa razão para impor limites aos nossos desejos e paixões, ensinando-nos a viver de modo honesto e justo na companhia dos outros seres humanos, a Filosofia teria como finalidade ensinar-nos a virtude, que é o princípio do bem-viver.
Essa definição da Filosofia, porém, não nos ajuda muito. De fato, mesmo para ser uma arte moral ou ética, ou uma arte do bem-viver, a Filosofia continua fazendo suas perguntas desconcertantes e embaraçosas: O que é o homem? O que é a vontade? O que é a paixão? O que é a razão? O que é o vício? O que é a virtude? O que é a liberdade? Como nos tornamos livres, racionais e virtuosos? Por que a liberdade e a virtude são valores para os seres humanos? O que é um valor? Por que avaliamos os sentimentos e as ações humanas?
Assim, mesmo se disséssemos que o objeto da Filosofia não é o conhecimento da realidade, nem o conhecimento da nossa capacidade para conhecer, mesmo se disséssemos que o objeto da Filosofia é apenas a vida moral ou ética, ainda assim, o estilo filosófico e a atitude filosófica permaneceriam os mesmos, pois as perguntas filosóficas - o que, por que e como - permanecem.
Atitude filosófica: indagar
Se, portanto, deixarmos de lado, por enquanto, os objetos com os quais a Filosofia se ocupa, veremos que a atitude filosófica possui algumas características que são as mesmas, independentemente do conteúdo investigado. Essas características são:
- perguntar o que a coisa, ou o valor, ou a idéia, é. A Filosofia pergunta qual é a realidade ou natureza e qual é a significação de alguma coisa, não importa qual;
- perguntar como a coisa, a idéia ou o valor, é. A Filosofia indaga qual é a estrutura e quais são as relações que constituem uma coisa, uma idéia ou um valor;
- perguntar por que a coisa, a idéia ou o valor, existe e é como é. A Filosofia pergunta pela origem ou pela causa de uma coisa, de uma idéia, de um valor.
A atitude filosófica inicia-se dirigindo essas indagações ao mundo que nos rodeia e às relações que mantemos com ele. Pouco a pouco, porém, descobre que essas questões se referem, afinal, à nossa capacidade de conhecer, à nossa capacidade de pensar.
Por isso, pouco a pouco, as perguntas da Filosofia se dirigem ao próprio pensamento: o que é pensar, como é pensar, por que há o pensar? A Filosofia torna-se, então, o pensamento interrogando-se a si mesmo. Por ser uma volta que o pensamento realiza sobre si mesmo, a Filosofia se realiza como reflexão.
A reflexão filosófica
Reflexão significa movimento de volta sobre si mesmo ou movimento de retorno a si mesmo. A reflexão é o movimento pelo qual o pensamento volta-se para si mesmo, interrogando a si mesmo.
A reflexão filosófica é radical porque é um movimento de volta do pensamento sobre si mesmo para conhecer-se a si mesmo, para indagar como é possível o próprio pensamento.
Não somos, porém, somente seres pensantes. Somos também seres que agem no mundo, que se relacionam com os outros seres humanos, com os animais, as plantas, as coisas, os fatos e acontecimentos, e exprimimos essas relações tanto por meio da linguagem quanto por meio de gestos e ações.
A reflexão filosófica também se volta para essas relações que mantemos com a realidade circundante, para o que dizemos e para as ações que realizamos nessas relações.
A reflexão filosófica organiza-se em torno de três grandes conjuntos de perguntas ou questões:
1. Por que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos e fazemos o que fazemos? Isto é, quais os motivos, as razões e as causas para pensarmos o que pensamos, dizermos o que dizemos, fazermos o que fazemos?
2. O que queremos pensar quando pensamos, o que queremos dizer quando falamos, o que queremos fazer quando agimos? Isto é, qual é o conteúdo ou o sentido do que pensamos, dizemos ou fazemos?
3. Para que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos, fazemos o que fazemos? Isto é, qual é a intenção ou a finalidade do que pensamos, dizemos e fazemos?
Essas três questões podem ser resumidas em: O que é pensar, falar e agir? E elas pressupõem a seguinte pergunta: Nossas crenças cotidianas são ou não um saber verdadeiro, um conhecimento?
Como vimos, a atitude filosófica inicia-se indagando: O que é? Como é? Por que é?, dirigindo-se ao mundo que nos rodeia e aos seres humanos que nele vivem e com ele se relacionam. São perguntas sobre a essência, a significação ou a estrutura e a origem de todas as coisas.
Já a reflexão filosófica indaga: Por quê?, O quê?, Para quê?, dirigindo-se ao pensamento, aos seres humanos no ato da reflexão. São perguntas sobre a capacidade e a finalidade humanas para conhecer e agir.
Filosofia: um pensamento sistemático
Essas indagações fundamentais não se realizam ao acaso, segundo preferências e opiniões de cada um de nós. A Filosofia não é um “eu acho que” ou um “eu gosto de”. Não é pesquisa de opinião à maneira dos meios de comunicação de massa. Não é pesquisa de mercado para conhecer preferências dos consumidores e montar uma propaganda.
As indagações filosóficas se realizam de modo sistemático.
Que significa isso?
Significa que a Filosofia trabalha com enunciados precisos e rigorosos, busca encadeamentos lógicos entre os enunciados, opera com conceitos ou idéias obtidos por procedimentos de demonstração e prova, exige a fundamentação racional do que é enunciado e pensado. Somente assim a reflexão filosófica pode fazer com que nossa experiência cotidiana, nossas crenças e opiniões alcancem uma visão crítica de si mesmas. Não se trata de dizer “eu acho que”, mas de poder afirmar “eu penso que”.
O conhecimento filosófico é um trabalho intelectual. É sistemático porque não se contenta em obter respostas para as questões colocadas, mas exige que as próprias questões sejam válidas e, em segundo lugar, que as respostas sejam verdadeiras, estejam relacionadas entre si, esclareçam umas às outras, formem conjuntos coerentes de idéias e significações, sejam provadas e demonstradas racionalmente.
Quando o senso comum diz “esta é minha filosofia” ou “isso é a filosofia de fulana ou de fulano”, engana-se e não se engana.
Engana-se porque imagina que para “ter uma filosofia” basta alguém possuir um conjunto de idéias mais ou menos coerentes sobre todas as coisas e pessoas, bem como ter um conjunto de princípios mais ou menos coerentes para julgar as coisas e as pessoas. “Minha filosofia” ou a “filosofia de fulano” ficam no plano de um “eu acho” coerente.
Mas o senso comum não se engana ao usar essas expressões porque percebe, ainda que muito confusamente, que há uma característica nas idéias e nos princípios que nos leva a dizer que são uma filosofia: a coerência, as relações entre as idéias e entre os princípios. Ou seja, o senso comum pressente que a Filosofia opera sistematicamente, com coerência e lógica, que a Filosofia tem uma vocação para formar um todo daquilo que aparece de modo fragmentado em nossa experiência cotidiana.
Em busca de uma definição da Filosofia
Quando começamos a estudar Filosofia, somos logo levados a buscar o que ela é. Nossa primeira surpresa surge ao descobrirmos que não há apenas uma definição da Filosofia, mas várias. A segunda surpresa vem ao percebermos que, além de várias, as definições parecem contradizer-se. Eis porque muitos, cheios de perplexidade, indagam: afinal, o que é a Filosofia que sequer consegue dizer o que ela é?
Uma primeira aproximação nos mostra pelo menos quatro definições gerais do que seria a Filosofia:
1. Visão de mundo de um povo, de uma civilização ou de uma cultura. Filosofia corresponde, de modo vago e geral, ao conjunto de idéias, valores e práticas pelos quais uma sociedade apreende e compreende o mundo e a si mesma, definindo para si o tempo e o espaço, o sagrado e o profano, o bom e o mau, o justo e o injusto, o belo e o feio, o verdadeiro e o falso, o possível e o impossível, o contingente e o necessário.
Qual o problema dessa definição? Ela é tão genérica e tão ampla que não permite, por exemplo, distinguir a Filosofia e religião, Filosofia e arte, Filosofia e ciência. Na verdade, essa definição identifica Filosofia e Cultura, pois esta é uma visão de mundo coletiva que se exprime em idéias, valores e práticas de uma sociedade.
A definição, portanto, não consegue acercar-se da especificidade do trabalho filosófico e por isso não podemos aceitá-la.
2. Sabedoria de vida. Aqui, a Filosofia é identificada com a definição e a ação de algumas pessoas que pensam sobre a vida moral, dedicando-se à contemplação do mundo para aprender com ele a controlar e dirigir suas vidas de modo ético e sábio.
A Filosofia seria uma contemplação do mundo e dos homens para nos conduzir a uma vida justa, sábia e feliz, ensinando-nos o domínio sobre nós mesmos, sobre nossos impulsos, desejos e paixões. É nesse sentido que se fala, por exemplo, numa filosofia do budismo.
Esta definição, porém, nos diz, de modo vago, o que se espera da Filosofia (a sabedoria interior), mas não o que é e o que faz a Filosofia e, por isso, também não podemos aceitá-la.
3. Esforço racional para conceber o Universo como uma totalidade ordenada e dotada de sentido. Nesse caso, começa-se distinguindo entre Filosofia e religião e até mesmo opondo uma à outra, pois ambas possuem o mesmo objeto (compreender o Universo), mas a primeira o faz através do esforço racional, enquanto a segunda, por confiança (fé) numa revelação divina.
Ou seja, a Filosofia procura discutir até o fim o sentido e o fundamento da realidade, enquanto a consciência religiosa se baseia num dado primeiro e inquestionável, que é a revelação divina indemonstrável.
Pela fé, a religião aceita princípios indemonstráveis e até mesmo aqueles que podem ser considerados irracionais pelo pensamento, enquanto a Filosofia não admite indemonstrabilidade e irracionalidade. Pelo contrário, a consciência filosófica procura explicar e compreender o que parece ser irracional e inquestionável.
No entanto, esta definição também é problemática, porque dá à Filosofia a tarefa de oferecer uma explicação e uma compreensão totais sobre o Universo, elaborando um sistema universal ou um sistema do mundo, mas sabemos, hoje, que essa tarefa é impossível.
Há pelo menos duas limitações principais a esta pretensão totalizadora: em primeiro lugar, porque a explicação sobre a realidade também é oferecida pelas ciências e pelas artes, cada uma das quais definindo um aspecto e um campo da realidade para estudo (no caso das ciências) e para a expressão (no caso das artes), já não sendo pensável uma única disciplina que pudesse abranger sozinha a totalidade dos conhecimentos; em segundo lugar, porque a própria Filosofia já não admite que seja possível um sistema de pensamento único que ofereça uma única explicação para o todo da realidade. Por isso, esta definição também não pode ser aceita.
4. Fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas. A Filosofia, cada vez mais, ocupa-se com as condições e os princípios do conhecimento que pretenda ser racional e verdadeiro; com a origem, a forma e o conteúdo dos valores éticos, políticos, artísticos e culturais; com a compreensão das causas e das formas da ilusão e do preconceito no plano individual e coletivo; com as transformações históricas dos conceitos, das idéias e dos valores.
A Filosofia volta-se, também, para o estudo da consciência em suas várias modalidades: percepção, imaginação, memória, linguagem, inteligência, experiência, reflexão, comportamento, vontade, desejo e paixões, procurando descrever as formas e os conteúdos dessas modalidades de relação entre o ser humano e o mundo, do ser humano consigo mesmo e com os outros. Finalmente, a Filosofia visa ao estudo e à interpretação de idéias ou significações gerais como: realidade, mundo, natureza, cultura, história, subjetividade, objetividade, diferença, repetição, semelhança, conflito, contradição, mudança, etc.
Sem abandonar as questões sobre a essência da realidade, a Filosofia procura diferenciar-se das ciências e das artes, dirigindo a investigação sobre o mundo natural e o mundo histórico (ou humano) num momento muito preciso: quando perdemos nossas certezas cotidianas e quando as ciências e as artes ainda não ofereceram outras certezas para substituir as que perdemos.
Em outras palavras, a Filosofia se interessa por aquele instante em que a realidade natural (o mundo das coisas) e a histórica (o mundo dos homens) tornam-se estranhas, espantosas, incompreensíveis e enigmáticas, quando o senso comum já não sabe o que pensar e dizer e as ciências e as artes ainda não sabem o que pensar e dizer.
Esta última descrição da atividade filosófica capta a Filosofia como análise (das condições da ciência, da religião, da arte, da moral), como reflexão (isto é, volta da consciência para si mesma para conhecer-se enquanto capacidade para o conhecimento, o sentimento e a ação) e como crítica (das ilusões e dos preconceitos individuais e coletivos, das teorias e práticas científicas, políticas e artísticas), essas três atividades (análise, reflexão e crítica) estando orientadas pela elaboração filosófica de significações gerais sobre a realidade e os seres humanos. Além de análise, reflexão e crítica, a Filosofia é a busca do fundamento e do sentido da realidade em suas múltiplas formas indagando o que são, qual sua permanência e qual a necessidade interna que as transforma em outras. O que é o ser e o aparecer-desaparecer dos seres?
A Filosofia não é ciência: é uma reflexão crítica sobre os procedimentos e conceitos científicos. Não é religião: é uma reflexão crítica sobre as origens e formas das crenças religiosas. Não é arte: é uma interpretação crítica dos conteúdos, das formas, das significações das obras de arte e do trabalho artístico. Não é sociologia nem psicologia, mas a interpretação e avaliação crítica dos conceitos e métodos da sociologia e da psicologia. Não é política, mas interpretação, compreensão e reflexão sobre a origem, a natureza e as formas do poder. Não é história, mas interpretação do sentido dos acontecimentos enquanto inseridos no tempo e compreensão do que seja o próprio tempo. Conhecimento do conhecimento e da ação humanos, conhecimento da transformação temporal dos princípios do saber e do agir, conhecimento da mudança das formas do real ou dos seres, a Filosofia sabe que está na História e que possui uma história.
Inútil? Útil?
O primeiro ensinamento filosófico é perguntar: O que é o útil? Para que e para quem algo é útil? O que é o inútil? Por que e para quem algo é inútil?
O senso comum de nossa sociedade considera útil o que dá prestígio, poder, fama e riqueza. Julga o útil pelos resultados visíveis das coisas e das ações, identificando utilidade e a famosa expressão “levar vantagem em tudo”. Desse ponto de vista, a Filosofia é inteiramente inútil e defende o direito de ser inútil.
Não poderíamos, porém, definir o útil de outra maneira?
Platão definia a Filosofia como um saber verdadeiro que deve ser usado em benefício dos seres humanos.
Descartes dizia que a Filosofia é o estudo da sabedoria, conhecimento perfeito de todas as coisas que os humanos podem alcançar para o uso da vida, a conservação da saúde e a invenção das técnicas e das artes.
Kant afirmou que a Filosofia é o conhecimento que a razão adquire de si mesma para saber o que pode conhecer e o que pode fazer, tendo como finalidade a felicidade humana.
Marx declarou que a Filosofia havia passado muito tempo apenas contemplando o mundo e que se tratava, agora, de conhecê-lo para transformá-lo, transformação que traria justiça, abundância e felicidade para todos.
Merleau-Ponty escreveu que a Filosofia é um despertar para ver e mudar nosso mundo.
Espinosa afirmou que a Filosofia é um caminho árduo e difícil, mas que pode ser percorrido por todos, se desejarem a liberdade e a felicidade.
Qual seria, então, a utilidade da Filosofia?
Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.
Imaginemos, agora, alguém que tomasse uma decisão muito estranha e começasse a fazer perguntas inesperadas. Em vez de "que horas são?" ou "que dia é hoje?", perguntasse: O que é o tempo? Em vez de dizer "está sonhando" ou "ficou maluca", quisesse saber: O que é o sonho? A loucura? A razão?
Se essa pessoa fosse substituindo sucessivamente suas perguntas, suas afirmações por outras: “Onde há fumaça, há fogo”, ou “não saia na chuva para não ficar resfriado”, por: O que é causa? O que é efeito?; “seja objetivo”, ou “eles são muito subjetivos”, por: O que é a objetividade? O que é a subjetividade?; “Esta casa é mais bonita do que a outra”, por: O que é “mais”? O que é “menos”? O que é o belo?
Em vez de gritar “mentiroso!”, questionasse: O que é a verdade? O que é o falso? O que é o erro? O que é a mentira? Quando existe verdade e por quê? Quando existe ilusão e por quê?
Se, em vez de falar na subjetividade dos namorados, inquirisse: O que é o amor? O que é o desejo? O que são os sentimentos?
Se, em lugar de discorrer tranqüilamente sobre “maior” e “menor” ou “claro” e “escuro”, resolvesse investigar: O que é a quantidade? O que é a qualidade?
E se, em vez de afirmar que gosta de alguém porque possui as mesmas idéias, os mesmos gostos, as mesmas preferências e os mesmos valores, preferisse analisar: O que é um valor? O que é um valor moral? O que é um valor artístico? O que é a moral? O que é a vontade? O que é a liberdade?
Alguém que tomasse essa decisão, estaria tomando distância da vida cotidiana e de si mesmo, teria passado a indagar o que são as crenças e os sentimentos que alimentam, silenciosamente, nossa existência.
Ao tomar essa distância, estaria interrogando a si mesmo, desejando conhecer por que cremos no que cremos, por que sentimos o que sentimos e o que são nossas crenças e nossos sentimentos. Esse alguém estaria começando a adotar o que chamamos de atitude filosófica.
Assim, uma primeira resposta à pergunta “O que é Filosofia?” poderia ser: A decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e compreendido.
Perguntaram, certa vez, a um filósofo: “Para que Filosofia?”. E ele respondeu: “Para não darmos nossa aceitação imediata às coisas, sem maiores considerações”.
A atitude crítica
A primeira característica da atitude filosófica é negativa, isto é, um dizer não ao senso comum, aos pré-conceitos, aos pré-juízos, aos fatos e às idéias da experiência cotidiana, ao que “todo mundo diz e pensa”, ao estabelecido.
A segunda característica da atitude filosófica é positiva, isto é, uma interrogação sobre o que são as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos. É também uma interrogação sobre o porquê disso tudo e de nós, e uma interrogação sobre como tudo isso é assim e não de outra maneira. O que é? Por que é? Como é? Essas são as indagações fundamentais da atitude filosófica.
A face negativa e a face positiva da atitude filosófica constituem o que chamamos de atitude crítica e pensamento crítico.
A Filosofia começa dizendo não às crenças e aos preconceitos do senso comum e, portanto, começa dizendo que não sabemos o que imaginávamos saber; por isso, o patrono da Filosofia, o grego Sócrates, afirmava que a primeira e fundamental verdade filosófica é dizer: “Sei que nada sei”. Para o discípulo de Sócrates, o filósofo grego Platão, a Filosofia começa com a admiração; já o discípulo de Platão, o filósofo Aristóteles, acreditava que a Filosofia começa com o espanto.
Admiração e espanto significam: tomamos distância do nosso mundo costumeiro, através de nosso pensamento, olhando-o como se nunca o tivéssemos visto antes, como se não tivéssemos tido família, amigos, professores, livros e outros meios de comunicação que nos tivessem dito o que o mundo é; como se estivéssemos acabando de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos perguntar o que é, por que é e como é o mundo, e precisássemos perguntar também o que somos, por que somos e como somos.
Para que Filosofia?
Ora, muitos fazem uma outra pergunta: afinal, para que Filosofia?
É uma pergunta interessante. Não vemos nem ouvimos ninguém perguntar, por exemplo, para que matemática ou física? Para que geografia ou geologia? Para que história ou sociologia? Para que biologia ou psicologia? Para que astronomia ou química? Para que pintura, literatura, música ou dança? Mas todo mundo acha muito natural perguntar: Para que Filosofia?
Em geral, essa pergunta costuma receber uma resposta irônica, conhecida dos estudantes de Filosofia: “A Filosofia é uma ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual”. Ou seja, a Filosofia não serve para nada. Por isso, se costuma chamar de “filósofo” alguém sempre distraído, com a cabeça no mundo da lua, pensando e dizendo coisas que ninguém entende e que são perfeitamente inúteis.
Essa pergunta, “Para que Filosofia?”, tem a sua razão de ser.
Em nossa cultura e em nossa sociedade, costumamos considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática, muito visível e de utilidade imediata.
Por isso, ninguém pergunta para que as ciências, pois todo mundo imagina ver a utilidade das ciências nos produtos da técnica, isto é, na aplicação científica à realidade.
Todo mundo também imagina ver a utilidade das artes, tanto por causa da compra e venda das obras de arte, quanto porque nossa cultura vê os artistas como gênios que merecem ser valorizados para o elogio da humanidade. Ninguém, todavia, consegue ver para que serviria a Filosofia, donde dizer-se: não serve para coisa alguma.
Parece, porém, que o senso comum não enxerga algo que os cientistas sabem muito bem. As ciências pretendem ser conhecimentos verdadeiros, obtidos graças a procedimentos rigorosos de pensamento; pretendem agir sobre a realidade, através de instrumentos e objetos técnicos; pretendem fazer progressos nos conhecimentos, corrigindo-os e aumentando-os.
Ora, todas essas pretensões das ciências pressupõem que elas acreditam na existência da verdade, de procedimentos corretos para bem usar o pensamento, na tecnologia como aplicação prática de teorias, na racionalidade dos conhecimentos, porque podem ser corrigidos e aperfeiçoados.
Verdade, pensamento, procedimentos especiais para conhecer fatos, relação entre teoria e prática, correção e acúmulo de saberes: tudo isso não é ciência, são questões filosóficas. O cientista parte delas como questões já respondidas, mas é a Filosofia quem as formula e busca respostas para elas.
Assim, o trabalho das ciências pressupõe, como condição, o trabalho da Filosofia, mesmo que o cientista não seja filósofo. No entanto, como apenas os cientistas e filósofos sabem disso, o senso comum continua afirmando que a Filosofia não serve para nada.
Para dar alguma utilidade à Filosofia, muitos consideram que, de fato, a Filosofia não serviria para nada, se “servir” fosse entendido como a possibilidade de fazer usos técnicos dos produtos filosóficos ou dar-lhes utilidade econômica, obtendo lucros com eles; consideram também que a Filosofia nada teria a ver com a ciência e a técnica.
Para quem pensa dessa forma, o principal para a Filosofia não seriam os conhecimentos (que ficam por conta da ciência), nem as aplicações de teorias (que ficam por conta da tecnologia), mas o ensinamento moral ou ético. A Filosofia seria a arte do bem viver. Estudando as paixões e os vícios humanos, a liberdade e a vontade, analisando a capacidade de nossa razão para impor limites aos nossos desejos e paixões, ensinando-nos a viver de modo honesto e justo na companhia dos outros seres humanos, a Filosofia teria como finalidade ensinar-nos a virtude, que é o princípio do bem-viver.
Essa definição da Filosofia, porém, não nos ajuda muito. De fato, mesmo para ser uma arte moral ou ética, ou uma arte do bem-viver, a Filosofia continua fazendo suas perguntas desconcertantes e embaraçosas: O que é o homem? O que é a vontade? O que é a paixão? O que é a razão? O que é o vício? O que é a virtude? O que é a liberdade? Como nos tornamos livres, racionais e virtuosos? Por que a liberdade e a virtude são valores para os seres humanos? O que é um valor? Por que avaliamos os sentimentos e as ações humanas?
Assim, mesmo se disséssemos que o objeto da Filosofia não é o conhecimento da realidade, nem o conhecimento da nossa capacidade para conhecer, mesmo se disséssemos que o objeto da Filosofia é apenas a vida moral ou ética, ainda assim, o estilo filosófico e a atitude filosófica permaneceriam os mesmos, pois as perguntas filosóficas - o que, por que e como - permanecem.
Atitude filosófica: indagar
Se, portanto, deixarmos de lado, por enquanto, os objetos com os quais a Filosofia se ocupa, veremos que a atitude filosófica possui algumas características que são as mesmas, independentemente do conteúdo investigado. Essas características são:
- perguntar o que a coisa, ou o valor, ou a idéia, é. A Filosofia pergunta qual é a realidade ou natureza e qual é a significação de alguma coisa, não importa qual;
- perguntar como a coisa, a idéia ou o valor, é. A Filosofia indaga qual é a estrutura e quais são as relações que constituem uma coisa, uma idéia ou um valor;
- perguntar por que a coisa, a idéia ou o valor, existe e é como é. A Filosofia pergunta pela origem ou pela causa de uma coisa, de uma idéia, de um valor.
A atitude filosófica inicia-se dirigindo essas indagações ao mundo que nos rodeia e às relações que mantemos com ele. Pouco a pouco, porém, descobre que essas questões se referem, afinal, à nossa capacidade de conhecer, à nossa capacidade de pensar.
Por isso, pouco a pouco, as perguntas da Filosofia se dirigem ao próprio pensamento: o que é pensar, como é pensar, por que há o pensar? A Filosofia torna-se, então, o pensamento interrogando-se a si mesmo. Por ser uma volta que o pensamento realiza sobre si mesmo, a Filosofia se realiza como reflexão.
A reflexão filosófica
Reflexão significa movimento de volta sobre si mesmo ou movimento de retorno a si mesmo. A reflexão é o movimento pelo qual o pensamento volta-se para si mesmo, interrogando a si mesmo.
A reflexão filosófica é radical porque é um movimento de volta do pensamento sobre si mesmo para conhecer-se a si mesmo, para indagar como é possível o próprio pensamento.
Não somos, porém, somente seres pensantes. Somos também seres que agem no mundo, que se relacionam com os outros seres humanos, com os animais, as plantas, as coisas, os fatos e acontecimentos, e exprimimos essas relações tanto por meio da linguagem quanto por meio de gestos e ações.
A reflexão filosófica também se volta para essas relações que mantemos com a realidade circundante, para o que dizemos e para as ações que realizamos nessas relações.
A reflexão filosófica organiza-se em torno de três grandes conjuntos de perguntas ou questões:
1. Por que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos e fazemos o que fazemos? Isto é, quais os motivos, as razões e as causas para pensarmos o que pensamos, dizermos o que dizemos, fazermos o que fazemos?
2. O que queremos pensar quando pensamos, o que queremos dizer quando falamos, o que queremos fazer quando agimos? Isto é, qual é o conteúdo ou o sentido do que pensamos, dizemos ou fazemos?
3. Para que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos, fazemos o que fazemos? Isto é, qual é a intenção ou a finalidade do que pensamos, dizemos e fazemos?
Essas três questões podem ser resumidas em: O que é pensar, falar e agir? E elas pressupõem a seguinte pergunta: Nossas crenças cotidianas são ou não um saber verdadeiro, um conhecimento?
Como vimos, a atitude filosófica inicia-se indagando: O que é? Como é? Por que é?, dirigindo-se ao mundo que nos rodeia e aos seres humanos que nele vivem e com ele se relacionam. São perguntas sobre a essência, a significação ou a estrutura e a origem de todas as coisas.
Já a reflexão filosófica indaga: Por quê?, O quê?, Para quê?, dirigindo-se ao pensamento, aos seres humanos no ato da reflexão. São perguntas sobre a capacidade e a finalidade humanas para conhecer e agir.
Filosofia: um pensamento sistemático
Essas indagações fundamentais não se realizam ao acaso, segundo preferências e opiniões de cada um de nós. A Filosofia não é um “eu acho que” ou um “eu gosto de”. Não é pesquisa de opinião à maneira dos meios de comunicação de massa. Não é pesquisa de mercado para conhecer preferências dos consumidores e montar uma propaganda.
As indagações filosóficas se realizam de modo sistemático.
Que significa isso?
Significa que a Filosofia trabalha com enunciados precisos e rigorosos, busca encadeamentos lógicos entre os enunciados, opera com conceitos ou idéias obtidos por procedimentos de demonstração e prova, exige a fundamentação racional do que é enunciado e pensado. Somente assim a reflexão filosófica pode fazer com que nossa experiência cotidiana, nossas crenças e opiniões alcancem uma visão crítica de si mesmas. Não se trata de dizer “eu acho que”, mas de poder afirmar “eu penso que”.
O conhecimento filosófico é um trabalho intelectual. É sistemático porque não se contenta em obter respostas para as questões colocadas, mas exige que as próprias questões sejam válidas e, em segundo lugar, que as respostas sejam verdadeiras, estejam relacionadas entre si, esclareçam umas às outras, formem conjuntos coerentes de idéias e significações, sejam provadas e demonstradas racionalmente.
Quando o senso comum diz “esta é minha filosofia” ou “isso é a filosofia de fulana ou de fulano”, engana-se e não se engana.
Engana-se porque imagina que para “ter uma filosofia” basta alguém possuir um conjunto de idéias mais ou menos coerentes sobre todas as coisas e pessoas, bem como ter um conjunto de princípios mais ou menos coerentes para julgar as coisas e as pessoas. “Minha filosofia” ou a “filosofia de fulano” ficam no plano de um “eu acho” coerente.
Mas o senso comum não se engana ao usar essas expressões porque percebe, ainda que muito confusamente, que há uma característica nas idéias e nos princípios que nos leva a dizer que são uma filosofia: a coerência, as relações entre as idéias e entre os princípios. Ou seja, o senso comum pressente que a Filosofia opera sistematicamente, com coerência e lógica, que a Filosofia tem uma vocação para formar um todo daquilo que aparece de modo fragmentado em nossa experiência cotidiana.
Em busca de uma definição da Filosofia
Quando começamos a estudar Filosofia, somos logo levados a buscar o que ela é. Nossa primeira surpresa surge ao descobrirmos que não há apenas uma definição da Filosofia, mas várias. A segunda surpresa vem ao percebermos que, além de várias, as definições parecem contradizer-se. Eis porque muitos, cheios de perplexidade, indagam: afinal, o que é a Filosofia que sequer consegue dizer o que ela é?
Uma primeira aproximação nos mostra pelo menos quatro definições gerais do que seria a Filosofia:
1. Visão de mundo de um povo, de uma civilização ou de uma cultura. Filosofia corresponde, de modo vago e geral, ao conjunto de idéias, valores e práticas pelos quais uma sociedade apreende e compreende o mundo e a si mesma, definindo para si o tempo e o espaço, o sagrado e o profano, o bom e o mau, o justo e o injusto, o belo e o feio, o verdadeiro e o falso, o possível e o impossível, o contingente e o necessário.
Qual o problema dessa definição? Ela é tão genérica e tão ampla que não permite, por exemplo, distinguir a Filosofia e religião, Filosofia e arte, Filosofia e ciência. Na verdade, essa definição identifica Filosofia e Cultura, pois esta é uma visão de mundo coletiva que se exprime em idéias, valores e práticas de uma sociedade.
A definição, portanto, não consegue acercar-se da especificidade do trabalho filosófico e por isso não podemos aceitá-la.
2. Sabedoria de vida. Aqui, a Filosofia é identificada com a definição e a ação de algumas pessoas que pensam sobre a vida moral, dedicando-se à contemplação do mundo para aprender com ele a controlar e dirigir suas vidas de modo ético e sábio.
A Filosofia seria uma contemplação do mundo e dos homens para nos conduzir a uma vida justa, sábia e feliz, ensinando-nos o domínio sobre nós mesmos, sobre nossos impulsos, desejos e paixões. É nesse sentido que se fala, por exemplo, numa filosofia do budismo.
Esta definição, porém, nos diz, de modo vago, o que se espera da Filosofia (a sabedoria interior), mas não o que é e o que faz a Filosofia e, por isso, também não podemos aceitá-la.
3. Esforço racional para conceber o Universo como uma totalidade ordenada e dotada de sentido. Nesse caso, começa-se distinguindo entre Filosofia e religião e até mesmo opondo uma à outra, pois ambas possuem o mesmo objeto (compreender o Universo), mas a primeira o faz através do esforço racional, enquanto a segunda, por confiança (fé) numa revelação divina.
Ou seja, a Filosofia procura discutir até o fim o sentido e o fundamento da realidade, enquanto a consciência religiosa se baseia num dado primeiro e inquestionável, que é a revelação divina indemonstrável.
Pela fé, a religião aceita princípios indemonstráveis e até mesmo aqueles que podem ser considerados irracionais pelo pensamento, enquanto a Filosofia não admite indemonstrabilidade e irracionalidade. Pelo contrário, a consciência filosófica procura explicar e compreender o que parece ser irracional e inquestionável.
No entanto, esta definição também é problemática, porque dá à Filosofia a tarefa de oferecer uma explicação e uma compreensão totais sobre o Universo, elaborando um sistema universal ou um sistema do mundo, mas sabemos, hoje, que essa tarefa é impossível.
Há pelo menos duas limitações principais a esta pretensão totalizadora: em primeiro lugar, porque a explicação sobre a realidade também é oferecida pelas ciências e pelas artes, cada uma das quais definindo um aspecto e um campo da realidade para estudo (no caso das ciências) e para a expressão (no caso das artes), já não sendo pensável uma única disciplina que pudesse abranger sozinha a totalidade dos conhecimentos; em segundo lugar, porque a própria Filosofia já não admite que seja possível um sistema de pensamento único que ofereça uma única explicação para o todo da realidade. Por isso, esta definição também não pode ser aceita.
4. Fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas. A Filosofia, cada vez mais, ocupa-se com as condições e os princípios do conhecimento que pretenda ser racional e verdadeiro; com a origem, a forma e o conteúdo dos valores éticos, políticos, artísticos e culturais; com a compreensão das causas e das formas da ilusão e do preconceito no plano individual e coletivo; com as transformações históricas dos conceitos, das idéias e dos valores.
A Filosofia volta-se, também, para o estudo da consciência em suas várias modalidades: percepção, imaginação, memória, linguagem, inteligência, experiência, reflexão, comportamento, vontade, desejo e paixões, procurando descrever as formas e os conteúdos dessas modalidades de relação entre o ser humano e o mundo, do ser humano consigo mesmo e com os outros. Finalmente, a Filosofia visa ao estudo e à interpretação de idéias ou significações gerais como: realidade, mundo, natureza, cultura, história, subjetividade, objetividade, diferença, repetição, semelhança, conflito, contradição, mudança, etc.
Sem abandonar as questões sobre a essência da realidade, a Filosofia procura diferenciar-se das ciências e das artes, dirigindo a investigação sobre o mundo natural e o mundo histórico (ou humano) num momento muito preciso: quando perdemos nossas certezas cotidianas e quando as ciências e as artes ainda não ofereceram outras certezas para substituir as que perdemos.
Em outras palavras, a Filosofia se interessa por aquele instante em que a realidade natural (o mundo das coisas) e a histórica (o mundo dos homens) tornam-se estranhas, espantosas, incompreensíveis e enigmáticas, quando o senso comum já não sabe o que pensar e dizer e as ciências e as artes ainda não sabem o que pensar e dizer.
Esta última descrição da atividade filosófica capta a Filosofia como análise (das condições da ciência, da religião, da arte, da moral), como reflexão (isto é, volta da consciência para si mesma para conhecer-se enquanto capacidade para o conhecimento, o sentimento e a ação) e como crítica (das ilusões e dos preconceitos individuais e coletivos, das teorias e práticas científicas, políticas e artísticas), essas três atividades (análise, reflexão e crítica) estando orientadas pela elaboração filosófica de significações gerais sobre a realidade e os seres humanos. Além de análise, reflexão e crítica, a Filosofia é a busca do fundamento e do sentido da realidade em suas múltiplas formas indagando o que são, qual sua permanência e qual a necessidade interna que as transforma em outras. O que é o ser e o aparecer-desaparecer dos seres?
A Filosofia não é ciência: é uma reflexão crítica sobre os procedimentos e conceitos científicos. Não é religião: é uma reflexão crítica sobre as origens e formas das crenças religiosas. Não é arte: é uma interpretação crítica dos conteúdos, das formas, das significações das obras de arte e do trabalho artístico. Não é sociologia nem psicologia, mas a interpretação e avaliação crítica dos conceitos e métodos da sociologia e da psicologia. Não é política, mas interpretação, compreensão e reflexão sobre a origem, a natureza e as formas do poder. Não é história, mas interpretação do sentido dos acontecimentos enquanto inseridos no tempo e compreensão do que seja o próprio tempo. Conhecimento do conhecimento e da ação humanos, conhecimento da transformação temporal dos princípios do saber e do agir, conhecimento da mudança das formas do real ou dos seres, a Filosofia sabe que está na História e que possui uma história.
Inútil? Útil?
O primeiro ensinamento filosófico é perguntar: O que é o útil? Para que e para quem algo é útil? O que é o inútil? Por que e para quem algo é inútil?
O senso comum de nossa sociedade considera útil o que dá prestígio, poder, fama e riqueza. Julga o útil pelos resultados visíveis das coisas e das ações, identificando utilidade e a famosa expressão “levar vantagem em tudo”. Desse ponto de vista, a Filosofia é inteiramente inútil e defende o direito de ser inútil.
Não poderíamos, porém, definir o útil de outra maneira?
Platão definia a Filosofia como um saber verdadeiro que deve ser usado em benefício dos seres humanos.
Descartes dizia que a Filosofia é o estudo da sabedoria, conhecimento perfeito de todas as coisas que os humanos podem alcançar para o uso da vida, a conservação da saúde e a invenção das técnicas e das artes.
Kant afirmou que a Filosofia é o conhecimento que a razão adquire de si mesma para saber o que pode conhecer e o que pode fazer, tendo como finalidade a felicidade humana.
Marx declarou que a Filosofia havia passado muito tempo apenas contemplando o mundo e que se tratava, agora, de conhecê-lo para transformá-lo, transformação que traria justiça, abundância e felicidade para todos.
Merleau-Ponty escreveu que a Filosofia é um despertar para ver e mudar nosso mundo.
Espinosa afirmou que a Filosofia é um caminho árduo e difícil, mas que pode ser percorrido por todos, se desejarem a liberdade e a felicidade.
Qual seria, então, a utilidade da Filosofia?
Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA NO BRASIL:
UMA AGENDA PARA PESQUISA*
André Cezar Medici**
Kaizô Iwakami Beltrão***
Resumo
Este texto procura discutir algumas abordagens sobre a
conformação do processo de transição demográfica, em
nível geral e no Brasil. Identifica lacunas associadas a
esse processo no caso brasileiro, destacando os aspectos
relacionados à transição da mortalidade. Em seguida,
propõe algumas linhas de investigação que procurem
estabelecer alguns nexos explicativos sobre o processo
de transição da mortalidade no Brasil, com base na relação
entre a natureza do desenvolvimento econômico e a
dinâmica das políticas sociais, particularmente as de
saúde.
* Trabalho apresentado na “IV Conferencia Latinoamericana de Población”, realizada na
Cidade do México, de 23 a 26 de março de 1993.
** Coordenador da Área de Políticas Sociais do Instituto de Economia do Setor Público
(IESP/FUNDAP) em São Paulo e presidente da Associação Brasileira de Economia da Saúde
(ABrES).
*** Superintendente da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE) do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE) e membro da Diretoria da Associação Brasileira de Estudos
Populacionais (ABEP).
PLANEJAMENTO E
POLÍTICAS PÚBLICAS
Nº 12 - JUN/DEZ
DE 1995
200
teoria tradicional da transição demográfica apresenta, como
ponto de partida, três postulados centrais. O primeiro deles
consiste no princípio da precedência no tempo da queda da
mortalidade. Segundo este postulado, a transição demográfica
se inicia com a redução da mortalidade, em função de conquistas associadas
ao progresso técnico, tais como melhoria dos sistemas de saneamento
(especialmente nas cidades) e o combate a doenças transmissíveis.
A alta mortalidade, especialmente a infantil, seria, portanto, o maior
estímulo à manutenção das elevadas taxas de fecundidade no período
pré-transicional.
O segundo postulado seria o da transição reprodutiva, a qual ocorreria
em duas fases. Em primeira instância, o retardamento dos casamentos
e, posteriormente, o controle da fecundidade por parte das pessoas que
vivem em união. Assim, as taxas brutas de mortalidade e de fecundidade
passariam a decrescer em valores assintóticos uma em relação a outra,
a partir de um dado momento no tempo, em que a fecundidade iniciaria
a sua queda. Vale dizer, também, que a fecundidade seguiria caindo a
partir do ponto em que a mortalidade atingiria um certo equilíbrio, deixando
de cair ou caindo a taxas mais brandas.1
O terceiro postulado seria dado pelas influências do crescimento econômico
moderno, no sentido atribuído por Simon Kuznetz,2 que destaca
a importância dos mercados na mobilidade e na dinâmica do crescimento
populacional. Neste ponto, a expansão do comércio mundial e a
dinâmica da urbanização e da modernização agrícola, expulsando mãode-
obra do campo para a cidade, teriam tido efeitos no sentido de incrementar
o processo de queda da fecundidade.
Um estudo recentemente elaborado por Chesnais (1986) revela que a
experiência histórica de muitos países permite encontrar lacunas nesse
processo, principalmente relacionadas:
a) à noção de equilíbrio pré e pós-transicional. Muitas das experiências
históricas mostram momentos em que a fecundidade flutua antes e depois
do período de transição demográfica, destoando da natureza do
processo correntemente descrito como padrão. Na análise de experiên-
1 Este argumento foi desenvolvido por Artzroundi (1986).
2 Ver sobre esse ponto Kuznetz (1986). Atenção especial deve ser dada ao capítulo II,
"Características do Moderno Crescimento Econômico".
A
TRANSIÇÃO
DEMOGRÁFICA NO
BRASIL: UMA AGENDA
PARA PESQUISA
201
cias históricas, altera-se, também, a variável tempo. Os eventos associados
à transição demográfica ocorrem, no tempo, com densidades distintas,
quando são considerados os diferentes processos de transição
demográfica, em nível mundial;
b) ao caráter de população preponderantemente fechada como quadro de
referência. O modelo tradicional de transição demográfica não leva em
conta as influências que a migração de contingentes populacionais, com
características socioculturais distintas e padrões reprodutivos diferenciados,
podem exercer no retardamento ou aceleração do processo de
transição demográfica; e
c) à ênfase no componente "mortalidade" como fator "ativo" na dinâmica
da transição e à pouca atenção dada à influência que reciprocamente é
exercida entre variáveis demográficas e econômicas. Se a queda da
mortalidade tem sido analisada como decorrência do crescimento econômico
e social, pode-se dizer, analogamente, que a queda da mortalidade
também tem sido um importante fator impulsionador do crescimento
econômico. Estas influências recíprocas podem ser observadas,
nos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, ao longo do período
1950-1980. Como a queda da mortalidade está altamente associada
ao combate de grandes endemias, pode-se dizer que ela ocorre conjuntamente
com uma etapa da transição epidemiológica,3 que é mais favorável
ao aumento da produtividade do trabalho.
3 Define-se como transição epidemiológica o processo de mudança na incidência ou na
prevalência de doenças, bem como nas principais causas de morte, ao longo do tempo. Esse
processo está, em geral, condicionado por dois fatores: a) mudanças associadas à estrutura
etária da população, ocorridas ao longo do processo de transição demográfica e propiciadas
pela rápida queda da fecundidade em um contexto mais suave de declínio da mortalidade; b)
mudanças no grau e no estilo de desenvolvimento, caracterizando a passagem de
sociedades rurais para urbanas, bem como na elevação dos níveis de assalariamento e
monetarização da sociedade, aumento na cobertura dos serviços sociais básicos de saúde,
educação, aumento na distribuição da renda nacional, etc. Laurenti, citando Omran, costuma
definir três momentos de transição epidemiológica ao longo da história: 1 - o período das
pestilências e da fome, quando a mortalidade era alta e oscilante, impedindo ou dificultando o
crescimento populacional continuado — neste período, a esperança de vida (E0) era baixa e
variava entre 20 e 40 anos; 2 - o período de desaparecimento das pandemias, em que a
mortalidade caiu progressivamente, e a magnitude desse declínio é maior à medida que os
picos epidêmicos se tornam menos freqüentes ou desaparecem. A esperança de vida ao
nascer passa a aumentar, às vezes rapidamente, atingindo 50 anos. O crescimento
populacional é contínuo e exponencial ao longo do período; 3 - o período das doenças
degenerativas e das doenças provocadas pelo homem, onde a mortalidade continua a
declinar ou a se estabilizar em níveis bem baixos. A esperança de vida ao nascer aumenta
gradualmente, ultrapassando os 50 anos e a fecundidade passa a ser a mais importante das
variáveis que regulam o crescimento populacional. Sobre este assunto ver Laurenti (1990) e
Omran (1971).
PLANEJAMENTO E
POLÍTICAS PÚBLICAS
Nº 12 - JUN/DEZ
DE 1995
202
Certamente que a teoria da transição demográfica encontra-se fortemente
correlacionada com a questão da transição da fecundidade. No
entanto, uma breve análise das correntes revela, pelo menos, a existência
de duas formas de abordagem da questão:
a) análises macroeconômicas, que procuram vincular a queda da fecundidade
a fatores gerais como a escassez de recursos e a ausência de
perspectivas econômicas da população,4 ou interpretações associadas
às transformações que se operam na natureza das relações de produção
e na dinâmica dos mercados, gerando novos padrões de comportamento
reprodutivo, assumidos por muitos como sendo de difícil reversibilidade
no tempo;5 e
b) análises microeconômicas, que procuram avaliar a questão da queda
da fecundidade como sendo uma decisão baseada em critérios custobenefícios
realizados pelas próprias famílias; dessa forma, coerentemente
com a teoria neoclássica das expectativas racionais, os filhos
seriam planejados pelas famílias, em função de um balanço econômico
das implicações decorrentes sobre a decisão de tê-los ou não tê-los.6
Todas essas questões mostram a dificuldade de se obterem análises
padronizadas sobre os processos de transição demográfica, notadamente
em função das distintas abordagens relacionadas ao peso exercido
pelas variáveis sociais (especialmente no que diz respeito aos arranjos
familiares, forma, composição e natureza das relações familiares) e
econômicas (natureza e evolução do processo de trabalho e dos mercados
internos e externos), na dinâmica desse processo e em diferentes
contextos históricos e regionais.
4 Estas interpretações são, em geral, de origem malthusiana ou neomalthusiana. Um
estudo elaborado nessa perspectiva é o de Blanchet (1989). As hipóteses "catastrofistas"
defendidas pelo Clube de Roma nos anos 60, principalmente a partir do informe de Meadows
et alii (1978), também se inserem nessa tradição.
5 Estas interpretaçãoes estão na base das correntes de origem marxista ou históricoestruturalistas.
6 Esta corrente, próxima do pensamento de Chicago sobre o assunto, a qual vem sendo
chamada de "Teoria da Demanda por Filhos" ou ainda "Nova Economia Domiciliar”, tem
introduzido forte rigor analítico em suas abordagens. O trabalho pioneiro foi escrito por
Becker (1960). Mais recentemente, esta corrente foi incorporada pela teoria do capital
humano, sendo, inclusive, objeto de análise de um de seus formuladores, T.W. Shultz. Um
trabalho expressivo a esse respeito pode ser observado em Shultz (1974).
TRANSIÇÃO
DEMOGRÁFICA NO
BRASIL: UMA AGENDA
PARA PESQUISA
203
1 Pontos para a Análise do Processo de Transição
Demográfica no Brasil e na América Latina
Ao analisar o processo de transição demográfica ocorrido nos países
latino-americanos, muitos autores têm discordado da "universalidade" da
teoria da transição demográfica, e de sua validade no contexto desse
continente. Assim, Mira (1986), ao analisar o processo de ocupação do
sul do Brasil, discute a validade da teoria clássica da transição demográfica,
ao encontrar um padrão distinto do verificado na Europa. A imigração
européia trouxe padrões tradicionais de comportamento reprodutivo
que foram modificados progressivamente com o contato com os padrões
previamente existentes no sul do Brasil.
Outros estudos, como o de Patarra e Ferreira (1986), apontam para as
diferenças dos processos de transição demográfica ocorridos nos países
de industrialização tardia, como o caso brasileiro.7
Existem trabalhos que questionam a validade da teoria das três etapas
seqüenciais da transição demográfica para a realidade brasileira e latinoamericana,
principalmente no que diz respeito à duração destas etapas.
Esta teoria afirma que a primeira etapa corresponde apenas à queda da
mortalidade. Na segunda, experimenta-se um período concomitante em
que ocorrem quedas da mortalidade e fecundidade. Por fim, na terceira
ocorrem apenas ajustes decorrentes da queda da fecundidade, sendo os
ganhos verificados na mortalidade apenas marginais.
Considerando-se a primeira etapa, a da queda da mortalidade, verificase
que, no Brasil, esta tem uma duração bastante rápida, pela aplicação
de técnicas médicas e sanitárias importadas dos países centrais, enquanto
que, nos países desenvolvidos, ela ocorreu de forma mais progressiva
e prolongada [Camargo e Saad (1990)].
Estudos como o de Wong (1987) discutem a mesma problemática por
outro ângulo, identificando a queda da fecundidade recente na América
Latina, como decorrência do empobrecimento das classes trabalhadoras
a partir dos anos 60 e 70. Esta interpretação, embora precedente, é
distinta da colocada por Souza (1987), que explica o caráter distinto da
7 O conceito de industrialização tardia, aqui definido, corresponde ao utilizado por Cardozo
de Mello (1986). Refere-se, basicamente, aos países cujo processo de industrialização
completou-se, ou encontrava-se em vias de se completar, após a Segunda Guerra Mundial.
PLANEJAMENTO E
POLÍTICAS PÚBLICAS
Nº 12 - JUN/DEZ
DE 1995
204
transição demográfica brasileira entre 1930 e 1980, pela presença de
processos micro e macrossociais tradicionais, que conseguiram conviver
com o desenvolvimento capitalista, determinando padrões de procriação
específicos entre as classes trabalhadoras.
Existem, ainda, os estudos ligados a interpretações sobre a dinâmica
regional, como a da cidade de São Paulo, que vinculam o caráter da
transição demográfica à natureza e à intensidade das imigrações estrangeiras.
8 Alguns desses estudos procuram vincular a dinâmica da
transição demográfica às distintas etapas do processo de crescimento
econômico e industrialização pelos quais passaram o estado e a cidade
de São Paulo.
Um livro clássico que articula o processo de crescimento demográfico
com a dinâmica da economia brasileira foi o escrito por Merrick e
Graham (1979). Este trabalho, feito por brasilianistas, foi estimulado pela
posição discordante do Brasil nos fóruns internacionais relacionados à
questão populacional, especialmente na Conferência de Bucareste,
sobre população, em 1974, onde predominou o discurso neomalthusiano.
Na análise da transição demográfica vivenciada pelo Brasil, estes autores
chegaram à conclusão que alguns processos histórico-sociais, como
a escravidão e a imigração européia, alteraram profundamente a estrutura
demográfica e socioeconômica do Brasil durante o período primárioexportador,
bem como ao longo das primeiras fases da industrialização.
Esses mesmos processos trouxeram fortes desequilíbrios regionais no
que tange aos caminhos traçados pelo desenvolvimento.
Como corolário desses desequilíbrios, passaram a ocorrer grandes fluxos
migratórios internos que explicam a recolonização rural (expansão e
ocupação das fronteiras agrícolas em regiões como o Norte e o Centro-
Oeste) e o acentuado crescimento urbano das últimas décadas, bem
como alguns de seus efeitos, como o desemprego e a miséria urbana.
O estudo feito por Merrick e Graham (1979) indica, dessa forma, que o
processo de transição demográfica no Brasil foi "atravessado" pelo crescimento
econômico excludente e pelos conseqüentes desequilíbrios
8 Sobre este ponto, existem os estudos de Posoli et alii (1987) e Patarra e Baeninger
(1988).
TRANSIÇÃO
DEMOGRÁFICA NO
BRASIL: UMA AGENDA
PARA PESQUISA
205
regionais. Conseqüentemente, vive-se uma situação em que a transição
demográfica tem sido seletiva, tanto do ponto de vista espacial, como
social. Embora a mortalidade venha se reduzindo progressivamente no
país, os grupos de mais baixa renda continuam a deter taxas elevadas
de fecundidade — e em muitos casos de mortalidade —, acontecendo o
inverso com os segmentos de rendas mais altas. Tal situação, na visão
dos autores, traria obviamente problemas futuros, prejudicando ainda
mais a situação social dos grupos menos favorecidos.
A adoção de medidas de planejamento familiar tem sido defendida por
alguns como a forma das classes de renda mais baixa obterem a informação
e os meios adequados para reduzir sua fecundidade e, com isso,
terem condições sociais para alcançar melhores níveis de morbidade e
mortalidade.
Os dados mais recentes sobre fecundidade no Brasil, a partir dos anos
80, evidenciam uma rápida redução das taxas de fecundidade em todas
as regiões e grupos sociais [Simões e Oliveira (1988)]. Será que estes
dados corroboram, em parte, as teses que postulavam o papel do processo
de desenvolvimento econômico na queda da fecundidade?
Para responder a esta questão, alguns fatos devem ser levados em
consideração:
a) A década de 80 foi, para o Brasil e para a maioria dos países da América
Latina, um período problemático, com taxas negativas de crescimento
econômico, instabilidade crônica e inflação, elevado déficit público
e perda dos mecanismos de regulação estatal da economia e da
sociedade. Assim, se não houve desenvolvimento econômico, também
não foi possível associar tal desenvolvimento com a queda da fecundidade,
a não ser que fosse assumida a possibilidade de uma defasagem
temporal nesse processo de causação.
b) Estaria, portanto, para ser testada, a seguinte hipótese malthusiana:
quando as condições de vida e sobrevivência se tornam adversas, passa
a haver um espaço para a redução da fecundidade. A perspectiva do
pauperismo, gerando instabilidade e incerteza quanto ao futuro, traria
para as famílias a necessidade de reduzir o número de filhos, tal como
apontou Wong (1987).
PLANEJAMENTO E
POLÍTICAS PÚBLICAS
Nº 12 - JUN/DEZ
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206
c) Para compensar essa hipótese, há o argumento de que a forte redução
da fecundidade, nos anos 80, seria o efeito retardado do intenso
processo de urbanização experimentado nos anos 70, o qual também
ocorreu nos anos 80 com menor intensidade. Nesse caso, estaria sendo
validada a teoria microeconômica na qual os filhos adicionais têm custos
crescentes diante dos benefícios que trazem para as famílias, na passagem
de sociedades rurais para urbanas.
d) Outra evidência que pode explicar a recente queda da fecundidade está
associada à difusão do uso de métodos contraceptivos, a partir de um
aumento do esclarecimento e do acesso da população aos mesmos. As
pesquisas recentes realizadas pelo IBGE e pela Sociedade Civil de Bem-
Estar Familiar no Brasil (BEMFAM)/Westinghouse evidenciam que a quase
totalidade das mulheres em idade reprodutiva no Brasil conheciam métodos
de planejamento familiar e sabiam aonde buscar esses métodos, e
quase dois terços das mesmas adotavam algum tipo de método.9 Nessa
perspectiva, a ação dos organismos de planejamento familiar, junto a entidades
do governo e da sociedade civil, tiveram a missão histórica de contribuir
para a redução da queda da fecundidade no Brasil, nos anos 80, e
mudar o comportamento das famílias pela instrução e informação sobre o
assunto.
Independentemente de qual das hipóteses tem mais aderência à realidade,
vale comentar que a dinâmica da fecundidade, diferentemente do
apontado por Chesnais (1986) no caso dos países centrais, tem sido o
componente mais discutido no recente processo de transição demográfica
no Brasil.10 Pouco se tem comentado a respeito da dinâmica da
mortalidade, especialmente nos anos 80, onde se vive o recrudescimento
de algumas endemias e o surto de epidemias antes erradicadas
ou controladas. Por outro lado, além do aumento das doenças crônicodegenerativas,
a crise fiscal e administrativa do Estado, bem como a
deterioração dos sistemas de produção econômica e proteção social,
tem acarretado aumentos na mortalidade por violências, acidentes de
9 Sobre este ponto, ver BEMFAM (1986). Nesta pesquisa, verifica-se que 99,6% das
mulheres de 15 a 44 anos, casadas ou em união, no Brasil, conheciam as pílulas
anticoncepcionais, e 95,4% sabiam da existência da esterilização feminina. Destas, 65,3%
usavam algum método e cerca de um terço das que não usavam, não o faziam por estarem
grávidas.
10 Uma crítica a este aspecto pode ser encontrada em Patarra e Oliveira(1988).
TRANSIÇÃO
DEMOGRÁFICA NO
BRASIL: UMA AGENDA
PARA PESQUISA
207
trânsito, acidentes de trabalho e doenças profissionais, especialmente
nos grupos de idade madura da população.
Portanto, mesmo que as taxas de fecundidade sejam inferiores a 2,0
filhos por mulher, em meados dos anos 90, a mortalidade no Brasil ainda
está longe de atingir patamares equivalentes ao do período póstransicional.
Os elevados níveis de mortalidade no Brasil correlacionamse,
de forma mais profunda, com a natureza excludente do processo de
desenvolvimento econômico e com uma das estruturas de distribuição
de renda mais concentradas do mundo.
2 Algumas Hipóteses sobre Transição Demográfica,
Produtividade Sistêmica11 e Distribuição de Renda
A proposta deste estudo é de trabalhar com a hipótese de que a especificidade
do processo de transição demográfica em países com desenvolvimento
econômico excludente, como é o caso do Brasil, encontra-se no
caráter tardio e prolongado da queda da mortalidade.
Durante os anos 50 a 70, os serviços de saúde, ao incorporarem os
ganhos de escala da medicina preventiva, das medidas da vacinação em
massa e de alguns cuidados primários de saúde, possibilitaram uma
queda rápida da mortalidade em um primeiro momento, embora sem
alcançar os níveis vigentes nos países desenvolvidos. A partir desse
patamar, a mortalidade passou a cair mais lentamente, dado que existiria
a necessidade de "acumulações sociais positivas" para que a mortalidade,
principalmente a infantil, continuasse a cair no mesmo ritmo e
intensidade do período anterior. Essas acumulações sociais, as quais
têm efeitos basicamente sobre a qualidade dos recursos humanos de
que dispõe a sociedade como um todo,12 consistem basicamente em:
11 Define-se por produtividade sistêmica o estado de articulação e resolubilidade em que
se encontram os sistemas de produção e gestão públicos e privados, sejam voltados para a
produção econômica, sejam voltados para as chamadas acumulações sociais (melhores
níveis de instrução, saúde, cultura, qualidade de vida e criatividade).
12 As acumulações sociais são extremamente importantes no processo de recuperação
econômica, bem como na busca de alternativas para crises associadas à perda da eficiência
global ou de produtividade sistêmica de uma determinada sociedade. Nesse sentido, as
acumulações sociais se refletem nos padrões éticos, culturais, nos laços de solidariedade e
nos mecanismos pelos quais a coletividade enfrenta o individualismo e o esgarçamento do
tecido social. Dependendo do tipo de sociedade, tais acumulações podem estar mais ou
menos determinadas pelo papel do Estado.
PLANEJAMENTO E
POLÍTICAS PÚBLICAS
Nº 12 - JUN/DEZ
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208
a) aumentos no gasto e na eficiência administrativa do setor público, nos
investimentos em saneamento básico e vigilância sanitária, e serviços de
saúde;
b) melhoria da distribuição de renda e maior acesso da população de
baixa renda à alimentação e instrução, visando reduzir os riscos de
mortalidade infantil por subnutrição e por falta de conhecimento sobre
medidas básicas de higiene doméstica;
Vale comentar, ainda, que existem diferenças substanciais na forma do
processo de ajustamento populacional, entre países que atravessam a
segunda fase da transição demográfica, com ritmos distintos de crescimento
econômico. Se o ritmo de crescimento é intenso, bem como a
produtividade sistêmica e a eficiência da administração pública são elevadas,
é possível que a segunda fase dure pouco, ingressando o país
imediatamente na terceira fase.
Analogamente, se ocorre ao longo de um forte período de estagnação
econômica, como parece ser o caso dos anos 80 e início dos 90 no
Brasil, é possível que a segunda fase se prolongue pela dificuldade de
completar o processo de queda da mortalidade. Se esta hipótese é verdadeira,
o caráter mais lento e prolongado da queda da mortalidade e
mais rápido da queda da fecundidade poderá trazer uma redução do
tamanho populacional no Brasil de forma mais rápida do que tem sido
estimado pelos demógrafos.
A continuidade do processo de instabilidade inflacionária, estagnação,
concentração de renda e ineficiência do Estado no Brasil poderia redundar,
portanto, ao final do milênio, em uma população mais reduzida do
que a esperada, na qual continuarão a prevalecer problemas crônicos de
excludência social, acesso deficiente às políticas sociais básicas por
parte da população de menor renda e, conseqüentemente, níveis de
mortalidade ainda não "ajustados" aos padrões vigentes no mundo desenvolvido.
As dificuldades em retomar consistentemente o desenvolvimento econômico
e as perspectivas sombrias quanto à geração de empregos poderão
excluir grandes contingentes populacionais do setor formal do
mercado de trabalho. O envelhecimento da população e o conseqüente
aumento das doenças crônico-degenerativas e das causas externas
(acidentes e violências) demandarão recursos cada vez mais vultosos,
TRANSIÇÃO
DEMOGRÁFICA NO
BRASIL: UMA AGENDA
PARA PESQUISA
209
os quais, em virtude da crise fiscal do Estado, não poderão ser obtidos
facilmente, por meio de arrecadação ordinária. Com isso, poderá ocorrer
o aumento da mortalidade específica para os grupos de idade adulta,
ocasionando uma redução da esperança de vida ativa da população, a
exemplo do que vem ocorrendo nos ex-países socialistas do leste europeu
(especialmente Polônia, Hungria e Tchecoslováquia) nos últimos
dez anos.13
O conhecimento e a tomada de posturas preventivas diante de cenários
desta natureza demandariam estudos, em sintonia fina, sobre a relação
entre transição demográfica e dinâmica econômica, que levassem em
consideração os seguintes aspectos:
a) a relação entre transição demográfica e distribuição de renda;
b) a relação entre transição demográfica, produção de subsistência nas
atividades rurais e estruturação dos mercados regionais e nacionais;
c) a relação entre transição demográfica e dinâmica econômica federativa
(ou seja, das distintas Unidades da Federação);
d) a relação entre dinâmica demográfica e acumulações sociais (papel
dos sistemas de saúde, educação, assistência social), aliada à análise
do desempenho dos setores públicos e privados na construção do estoque
dessas acumulações.
Estas linhas de estudo exigem aprofundamentos históricos, conceituais,
metodológicos e estatísticos, hoje ainda superficiais, seja no Brasil, seja
nos países latino-americanos.
13 Ver, sobre este ponto, Gall (1992).
PLANEJAMENTO E
POLÍTICAS PÚBLICAS
Nº 12 - JUN/DEZ
DE 1995
210
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UMA AGENDA PARA PESQUISA*
André Cezar Medici**
Kaizô Iwakami Beltrão***
Resumo
Este texto procura discutir algumas abordagens sobre a
conformação do processo de transição demográfica, em
nível geral e no Brasil. Identifica lacunas associadas a
esse processo no caso brasileiro, destacando os aspectos
relacionados à transição da mortalidade. Em seguida,
propõe algumas linhas de investigação que procurem
estabelecer alguns nexos explicativos sobre o processo
de transição da mortalidade no Brasil, com base na relação
entre a natureza do desenvolvimento econômico e a
dinâmica das políticas sociais, particularmente as de
saúde.
* Trabalho apresentado na “IV Conferencia Latinoamericana de Población”, realizada na
Cidade do México, de 23 a 26 de março de 1993.
** Coordenador da Área de Políticas Sociais do Instituto de Economia do Setor Público
(IESP/FUNDAP) em São Paulo e presidente da Associação Brasileira de Economia da Saúde
(ABrES).
*** Superintendente da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE) do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE) e membro da Diretoria da Associação Brasileira de Estudos
Populacionais (ABEP).
PLANEJAMENTO E
POLÍTICAS PÚBLICAS
Nº 12 - JUN/DEZ
DE 1995
200
teoria tradicional da transição demográfica apresenta, como
ponto de partida, três postulados centrais. O primeiro deles
consiste no princípio da precedência no tempo da queda da
mortalidade. Segundo este postulado, a transição demográfica
se inicia com a redução da mortalidade, em função de conquistas associadas
ao progresso técnico, tais como melhoria dos sistemas de saneamento
(especialmente nas cidades) e o combate a doenças transmissíveis.
A alta mortalidade, especialmente a infantil, seria, portanto, o maior
estímulo à manutenção das elevadas taxas de fecundidade no período
pré-transicional.
O segundo postulado seria o da transição reprodutiva, a qual ocorreria
em duas fases. Em primeira instância, o retardamento dos casamentos
e, posteriormente, o controle da fecundidade por parte das pessoas que
vivem em união. Assim, as taxas brutas de mortalidade e de fecundidade
passariam a decrescer em valores assintóticos uma em relação a outra,
a partir de um dado momento no tempo, em que a fecundidade iniciaria
a sua queda. Vale dizer, também, que a fecundidade seguiria caindo a
partir do ponto em que a mortalidade atingiria um certo equilíbrio, deixando
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a) à noção de equilíbrio pré e pós-transicional. Muitas das experiências
históricas mostram momentos em que a fecundidade flutua antes e depois
do período de transição demográfica, destoando da natureza do
processo correntemente descrito como padrão. Na análise de experiên-
1 Este argumento foi desenvolvido por Artzroundi (1986).
2 Ver sobre esse ponto Kuznetz (1986). Atenção especial deve ser dada ao capítulo II,
"Características do Moderno Crescimento Econômico".
A
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201
cias históricas, altera-se, também, a variável tempo. Os eventos associados
à transição demográfica ocorrem, no tempo, com densidades distintas,
quando são considerados os diferentes processos de transição
demográfica, em nível mundial;
b) ao caráter de população preponderantemente fechada como quadro de
referência. O modelo tradicional de transição demográfica não leva em
conta as influências que a migração de contingentes populacionais, com
características socioculturais distintas e padrões reprodutivos diferenciados,
podem exercer no retardamento ou aceleração do processo de
transição demográfica; e
c) à ênfase no componente "mortalidade" como fator "ativo" na dinâmica
da transição e à pouca atenção dada à influência que reciprocamente é
exercida entre variáveis demográficas e econômicas. Se a queda da
mortalidade tem sido analisada como decorrência do crescimento econômico
e social, pode-se dizer, analogamente, que a queda da mortalidade
também tem sido um importante fator impulsionador do crescimento
econômico. Estas influências recíprocas podem ser observadas,
nos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, ao longo do período
1950-1980. Como a queda da mortalidade está altamente associada
ao combate de grandes endemias, pode-se dizer que ela ocorre conjuntamente
com uma etapa da transição epidemiológica,3 que é mais favorável
ao aumento da produtividade do trabalho.
3 Define-se como transição epidemiológica o processo de mudança na incidência ou na
prevalência de doenças, bem como nas principais causas de morte, ao longo do tempo. Esse
processo está, em geral, condicionado por dois fatores: a) mudanças associadas à estrutura
etária da população, ocorridas ao longo do processo de transição demográfica e propiciadas
pela rápida queda da fecundidade em um contexto mais suave de declínio da mortalidade; b)
mudanças no grau e no estilo de desenvolvimento, caracterizando a passagem de
sociedades rurais para urbanas, bem como na elevação dos níveis de assalariamento e
monetarização da sociedade, aumento na cobertura dos serviços sociais básicos de saúde,
educação, aumento na distribuição da renda nacional, etc. Laurenti, citando Omran, costuma
definir três momentos de transição epidemiológica ao longo da história: 1 - o período das
pestilências e da fome, quando a mortalidade era alta e oscilante, impedindo ou dificultando o
crescimento populacional continuado — neste período, a esperança de vida (E0) era baixa e
variava entre 20 e 40 anos; 2 - o período de desaparecimento das pandemias, em que a
mortalidade caiu progressivamente, e a magnitude desse declínio é maior à medida que os
picos epidêmicos se tornam menos freqüentes ou desaparecem. A esperança de vida ao
nascer passa a aumentar, às vezes rapidamente, atingindo 50 anos. O crescimento
populacional é contínuo e exponencial ao longo do período; 3 - o período das doenças
degenerativas e das doenças provocadas pelo homem, onde a mortalidade continua a
declinar ou a se estabilizar em níveis bem baixos. A esperança de vida ao nascer aumenta
gradualmente, ultrapassando os 50 anos e a fecundidade passa a ser a mais importante das
variáveis que regulam o crescimento populacional. Sobre este assunto ver Laurenti (1990) e
Omran (1971).
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DE 1995
202
Certamente que a teoria da transição demográfica encontra-se fortemente
correlacionada com a questão da transição da fecundidade. No
entanto, uma breve análise das correntes revela, pelo menos, a existência
de duas formas de abordagem da questão:
a) análises macroeconômicas, que procuram vincular a queda da fecundidade
a fatores gerais como a escassez de recursos e a ausência de
perspectivas econômicas da população,4 ou interpretações associadas
às transformações que se operam na natureza das relações de produção
e na dinâmica dos mercados, gerando novos padrões de comportamento
reprodutivo, assumidos por muitos como sendo de difícil reversibilidade
no tempo;5 e
b) análises microeconômicas, que procuram avaliar a questão da queda
da fecundidade como sendo uma decisão baseada em critérios custobenefícios
realizados pelas próprias famílias; dessa forma, coerentemente
com a teoria neoclássica das expectativas racionais, os filhos
seriam planejados pelas famílias, em função de um balanço econômico
das implicações decorrentes sobre a decisão de tê-los ou não tê-los.6
Todas essas questões mostram a dificuldade de se obterem análises
padronizadas sobre os processos de transição demográfica, notadamente
em função das distintas abordagens relacionadas ao peso exercido
pelas variáveis sociais (especialmente no que diz respeito aos arranjos
familiares, forma, composição e natureza das relações familiares) e
econômicas (natureza e evolução do processo de trabalho e dos mercados
internos e externos), na dinâmica desse processo e em diferentes
contextos históricos e regionais.
4 Estas interpretações são, em geral, de origem malthusiana ou neomalthusiana. Um
estudo elaborado nessa perspectiva é o de Blanchet (1989). As hipóteses "catastrofistas"
defendidas pelo Clube de Roma nos anos 60, principalmente a partir do informe de Meadows
et alii (1978), também se inserem nessa tradição.
5 Estas interpretaçãoes estão na base das correntes de origem marxista ou históricoestruturalistas.
6 Esta corrente, próxima do pensamento de Chicago sobre o assunto, a qual vem sendo
chamada de "Teoria da Demanda por Filhos" ou ainda "Nova Economia Domiciliar”, tem
introduzido forte rigor analítico em suas abordagens. O trabalho pioneiro foi escrito por
Becker (1960). Mais recentemente, esta corrente foi incorporada pela teoria do capital
humano, sendo, inclusive, objeto de análise de um de seus formuladores, T.W. Shultz. Um
trabalho expressivo a esse respeito pode ser observado em Shultz (1974).
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1 Pontos para a Análise do Processo de Transição
Demográfica no Brasil e na América Latina
Ao analisar o processo de transição demográfica ocorrido nos países
latino-americanos, muitos autores têm discordado da "universalidade" da
teoria da transição demográfica, e de sua validade no contexto desse
continente. Assim, Mira (1986), ao analisar o processo de ocupação do
sul do Brasil, discute a validade da teoria clássica da transição demográfica,
ao encontrar um padrão distinto do verificado na Europa. A imigração
européia trouxe padrões tradicionais de comportamento reprodutivo
que foram modificados progressivamente com o contato com os padrões
previamente existentes no sul do Brasil.
Outros estudos, como o de Patarra e Ferreira (1986), apontam para as
diferenças dos processos de transição demográfica ocorridos nos países
de industrialização tardia, como o caso brasileiro.7
Existem trabalhos que questionam a validade da teoria das três etapas
seqüenciais da transição demográfica para a realidade brasileira e latinoamericana,
principalmente no que diz respeito à duração destas etapas.
Esta teoria afirma que a primeira etapa corresponde apenas à queda da
mortalidade. Na segunda, experimenta-se um período concomitante em
que ocorrem quedas da mortalidade e fecundidade. Por fim, na terceira
ocorrem apenas ajustes decorrentes da queda da fecundidade, sendo os
ganhos verificados na mortalidade apenas marginais.
Considerando-se a primeira etapa, a da queda da mortalidade, verificase
que, no Brasil, esta tem uma duração bastante rápida, pela aplicação
de técnicas médicas e sanitárias importadas dos países centrais, enquanto
que, nos países desenvolvidos, ela ocorreu de forma mais progressiva
e prolongada [Camargo e Saad (1990)].
Estudos como o de Wong (1987) discutem a mesma problemática por
outro ângulo, identificando a queda da fecundidade recente na América
Latina, como decorrência do empobrecimento das classes trabalhadoras
a partir dos anos 60 e 70. Esta interpretação, embora precedente, é
distinta da colocada por Souza (1987), que explica o caráter distinto da
7 O conceito de industrialização tardia, aqui definido, corresponde ao utilizado por Cardozo
de Mello (1986). Refere-se, basicamente, aos países cujo processo de industrialização
completou-se, ou encontrava-se em vias de se completar, após a Segunda Guerra Mundial.
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transição demográfica brasileira entre 1930 e 1980, pela presença de
processos micro e macrossociais tradicionais, que conseguiram conviver
com o desenvolvimento capitalista, determinando padrões de procriação
específicos entre as classes trabalhadoras.
Existem, ainda, os estudos ligados a interpretações sobre a dinâmica
regional, como a da cidade de São Paulo, que vinculam o caráter da
transição demográfica à natureza e à intensidade das imigrações estrangeiras.
8 Alguns desses estudos procuram vincular a dinâmica da
transição demográfica às distintas etapas do processo de crescimento
econômico e industrialização pelos quais passaram o estado e a cidade
de São Paulo.
Um livro clássico que articula o processo de crescimento demográfico
com a dinâmica da economia brasileira foi o escrito por Merrick e
Graham (1979). Este trabalho, feito por brasilianistas, foi estimulado pela
posição discordante do Brasil nos fóruns internacionais relacionados à
questão populacional, especialmente na Conferência de Bucareste,
sobre população, em 1974, onde predominou o discurso neomalthusiano.
Na análise da transição demográfica vivenciada pelo Brasil, estes autores
chegaram à conclusão que alguns processos histórico-sociais, como
a escravidão e a imigração européia, alteraram profundamente a estrutura
demográfica e socioeconômica do Brasil durante o período primárioexportador,
bem como ao longo das primeiras fases da industrialização.
Esses mesmos processos trouxeram fortes desequilíbrios regionais no
que tange aos caminhos traçados pelo desenvolvimento.
Como corolário desses desequilíbrios, passaram a ocorrer grandes fluxos
migratórios internos que explicam a recolonização rural (expansão e
ocupação das fronteiras agrícolas em regiões como o Norte e o Centro-
Oeste) e o acentuado crescimento urbano das últimas décadas, bem
como alguns de seus efeitos, como o desemprego e a miséria urbana.
O estudo feito por Merrick e Graham (1979) indica, dessa forma, que o
processo de transição demográfica no Brasil foi "atravessado" pelo crescimento
econômico excludente e pelos conseqüentes desequilíbrios
8 Sobre este ponto, existem os estudos de Posoli et alii (1987) e Patarra e Baeninger
(1988).
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205
regionais. Conseqüentemente, vive-se uma situação em que a transição
demográfica tem sido seletiva, tanto do ponto de vista espacial, como
social. Embora a mortalidade venha se reduzindo progressivamente no
país, os grupos de mais baixa renda continuam a deter taxas elevadas
de fecundidade — e em muitos casos de mortalidade —, acontecendo o
inverso com os segmentos de rendas mais altas. Tal situação, na visão
dos autores, traria obviamente problemas futuros, prejudicando ainda
mais a situação social dos grupos menos favorecidos.
A adoção de medidas de planejamento familiar tem sido defendida por
alguns como a forma das classes de renda mais baixa obterem a informação
e os meios adequados para reduzir sua fecundidade e, com isso,
terem condições sociais para alcançar melhores níveis de morbidade e
mortalidade.
Os dados mais recentes sobre fecundidade no Brasil, a partir dos anos
80, evidenciam uma rápida redução das taxas de fecundidade em todas
as regiões e grupos sociais [Simões e Oliveira (1988)]. Será que estes
dados corroboram, em parte, as teses que postulavam o papel do processo
de desenvolvimento econômico na queda da fecundidade?
Para responder a esta questão, alguns fatos devem ser levados em
consideração:
a) A década de 80 foi, para o Brasil e para a maioria dos países da América
Latina, um período problemático, com taxas negativas de crescimento
econômico, instabilidade crônica e inflação, elevado déficit público
e perda dos mecanismos de regulação estatal da economia e da
sociedade. Assim, se não houve desenvolvimento econômico, também
não foi possível associar tal desenvolvimento com a queda da fecundidade,
a não ser que fosse assumida a possibilidade de uma defasagem
temporal nesse processo de causação.
b) Estaria, portanto, para ser testada, a seguinte hipótese malthusiana:
quando as condições de vida e sobrevivência se tornam adversas, passa
a haver um espaço para a redução da fecundidade. A perspectiva do
pauperismo, gerando instabilidade e incerteza quanto ao futuro, traria
para as famílias a necessidade de reduzir o número de filhos, tal como
apontou Wong (1987).
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c) Para compensar essa hipótese, há o argumento de que a forte redução
da fecundidade, nos anos 80, seria o efeito retardado do intenso
processo de urbanização experimentado nos anos 70, o qual também
ocorreu nos anos 80 com menor intensidade. Nesse caso, estaria sendo
validada a teoria microeconômica na qual os filhos adicionais têm custos
crescentes diante dos benefícios que trazem para as famílias, na passagem
de sociedades rurais para urbanas.
d) Outra evidência que pode explicar a recente queda da fecundidade está
associada à difusão do uso de métodos contraceptivos, a partir de um
aumento do esclarecimento e do acesso da população aos mesmos. As
pesquisas recentes realizadas pelo IBGE e pela Sociedade Civil de Bem-
Estar Familiar no Brasil (BEMFAM)/Westinghouse evidenciam que a quase
totalidade das mulheres em idade reprodutiva no Brasil conheciam métodos
de planejamento familiar e sabiam aonde buscar esses métodos, e
quase dois terços das mesmas adotavam algum tipo de método.9 Nessa
perspectiva, a ação dos organismos de planejamento familiar, junto a entidades
do governo e da sociedade civil, tiveram a missão histórica de contribuir
para a redução da queda da fecundidade no Brasil, nos anos 80, e
mudar o comportamento das famílias pela instrução e informação sobre o
assunto.
Independentemente de qual das hipóteses tem mais aderência à realidade,
vale comentar que a dinâmica da fecundidade, diferentemente do
apontado por Chesnais (1986) no caso dos países centrais, tem sido o
componente mais discutido no recente processo de transição demográfica
no Brasil.10 Pouco se tem comentado a respeito da dinâmica da
mortalidade, especialmente nos anos 80, onde se vive o recrudescimento
de algumas endemias e o surto de epidemias antes erradicadas
ou controladas. Por outro lado, além do aumento das doenças crônicodegenerativas,
a crise fiscal e administrativa do Estado, bem como a
deterioração dos sistemas de produção econômica e proteção social,
tem acarretado aumentos na mortalidade por violências, acidentes de
9 Sobre este ponto, ver BEMFAM (1986). Nesta pesquisa, verifica-se que 99,6% das
mulheres de 15 a 44 anos, casadas ou em união, no Brasil, conheciam as pílulas
anticoncepcionais, e 95,4% sabiam da existência da esterilização feminina. Destas, 65,3%
usavam algum método e cerca de um terço das que não usavam, não o faziam por estarem
grávidas.
10 Uma crítica a este aspecto pode ser encontrada em Patarra e Oliveira(1988).
TRANSIÇÃO
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PARA PESQUISA
207
trânsito, acidentes de trabalho e doenças profissionais, especialmente
nos grupos de idade madura da população.
Portanto, mesmo que as taxas de fecundidade sejam inferiores a 2,0
filhos por mulher, em meados dos anos 90, a mortalidade no Brasil ainda
está longe de atingir patamares equivalentes ao do período póstransicional.
Os elevados níveis de mortalidade no Brasil correlacionamse,
de forma mais profunda, com a natureza excludente do processo de
desenvolvimento econômico e com uma das estruturas de distribuição
de renda mais concentradas do mundo.
2 Algumas Hipóteses sobre Transição Demográfica,
Produtividade Sistêmica11 e Distribuição de Renda
A proposta deste estudo é de trabalhar com a hipótese de que a especificidade
do processo de transição demográfica em países com desenvolvimento
econômico excludente, como é o caso do Brasil, encontra-se no
caráter tardio e prolongado da queda da mortalidade.
Durante os anos 50 a 70, os serviços de saúde, ao incorporarem os
ganhos de escala da medicina preventiva, das medidas da vacinação em
massa e de alguns cuidados primários de saúde, possibilitaram uma
queda rápida da mortalidade em um primeiro momento, embora sem
alcançar os níveis vigentes nos países desenvolvidos. A partir desse
patamar, a mortalidade passou a cair mais lentamente, dado que existiria
a necessidade de "acumulações sociais positivas" para que a mortalidade,
principalmente a infantil, continuasse a cair no mesmo ritmo e
intensidade do período anterior. Essas acumulações sociais, as quais
têm efeitos basicamente sobre a qualidade dos recursos humanos de
que dispõe a sociedade como um todo,12 consistem basicamente em:
11 Define-se por produtividade sistêmica o estado de articulação e resolubilidade em que
se encontram os sistemas de produção e gestão públicos e privados, sejam voltados para a
produção econômica, sejam voltados para as chamadas acumulações sociais (melhores
níveis de instrução, saúde, cultura, qualidade de vida e criatividade).
12 As acumulações sociais são extremamente importantes no processo de recuperação
econômica, bem como na busca de alternativas para crises associadas à perda da eficiência
global ou de produtividade sistêmica de uma determinada sociedade. Nesse sentido, as
acumulações sociais se refletem nos padrões éticos, culturais, nos laços de solidariedade e
nos mecanismos pelos quais a coletividade enfrenta o individualismo e o esgarçamento do
tecido social. Dependendo do tipo de sociedade, tais acumulações podem estar mais ou
menos determinadas pelo papel do Estado.
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a) aumentos no gasto e na eficiência administrativa do setor público, nos
investimentos em saneamento básico e vigilância sanitária, e serviços de
saúde;
b) melhoria da distribuição de renda e maior acesso da população de
baixa renda à alimentação e instrução, visando reduzir os riscos de
mortalidade infantil por subnutrição e por falta de conhecimento sobre
medidas básicas de higiene doméstica;
Vale comentar, ainda, que existem diferenças substanciais na forma do
processo de ajustamento populacional, entre países que atravessam a
segunda fase da transição demográfica, com ritmos distintos de crescimento
econômico. Se o ritmo de crescimento é intenso, bem como a
produtividade sistêmica e a eficiência da administração pública são elevadas,
é possível que a segunda fase dure pouco, ingressando o país
imediatamente na terceira fase.
Analogamente, se ocorre ao longo de um forte período de estagnação
econômica, como parece ser o caso dos anos 80 e início dos 90 no
Brasil, é possível que a segunda fase se prolongue pela dificuldade de
completar o processo de queda da mortalidade. Se esta hipótese é verdadeira,
o caráter mais lento e prolongado da queda da mortalidade e
mais rápido da queda da fecundidade poderá trazer uma redução do
tamanho populacional no Brasil de forma mais rápida do que tem sido
estimado pelos demógrafos.
A continuidade do processo de instabilidade inflacionária, estagnação,
concentração de renda e ineficiência do Estado no Brasil poderia redundar,
portanto, ao final do milênio, em uma população mais reduzida do
que a esperada, na qual continuarão a prevalecer problemas crônicos de
excludência social, acesso deficiente às políticas sociais básicas por
parte da população de menor renda e, conseqüentemente, níveis de
mortalidade ainda não "ajustados" aos padrões vigentes no mundo desenvolvido.
As dificuldades em retomar consistentemente o desenvolvimento econômico
e as perspectivas sombrias quanto à geração de empregos poderão
excluir grandes contingentes populacionais do setor formal do
mercado de trabalho. O envelhecimento da população e o conseqüente
aumento das doenças crônico-degenerativas e das causas externas
(acidentes e violências) demandarão recursos cada vez mais vultosos,
TRANSIÇÃO
DEMOGRÁFICA NO
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209
os quais, em virtude da crise fiscal do Estado, não poderão ser obtidos
facilmente, por meio de arrecadação ordinária. Com isso, poderá ocorrer
o aumento da mortalidade específica para os grupos de idade adulta,
ocasionando uma redução da esperança de vida ativa da população, a
exemplo do que vem ocorrendo nos ex-países socialistas do leste europeu
(especialmente Polônia, Hungria e Tchecoslováquia) nos últimos
dez anos.13
O conhecimento e a tomada de posturas preventivas diante de cenários
desta natureza demandariam estudos, em sintonia fina, sobre a relação
entre transição demográfica e dinâmica econômica, que levassem em
consideração os seguintes aspectos:
a) a relação entre transição demográfica e distribuição de renda;
b) a relação entre transição demográfica, produção de subsistência nas
atividades rurais e estruturação dos mercados regionais e nacionais;
c) a relação entre transição demográfica e dinâmica econômica federativa
(ou seja, das distintas Unidades da Federação);
d) a relação entre dinâmica demográfica e acumulações sociais (papel
dos sistemas de saúde, educação, assistência social), aliada à análise
do desempenho dos setores públicos e privados na construção do estoque
dessas acumulações.
Estas linhas de estudo exigem aprofundamentos históricos, conceituais,
metodológicos e estatísticos, hoje ainda superficiais, seja no Brasil, seja
nos países latino-americanos.
13 Ver, sobre este ponto, Gall (1992).
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